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Fiz uma dobradinha Stephen King e acho que não vou dormir nunca mais


Por algum motivo, decidi ler um livro do Stephen King atrás do outro. Pensava eu, em minha ignorância, que seria de boas, afinal eu sou uma Garota do Terror, adoro a temática, assisto a filmes de terror rindo. Ledo engano. Li dois livros do titio King em sequência e estou tão atormentada pelas cenas vívidas de pesadelo escritas por ele que acho que não dormirei nunca mais. 

Os livros da vez foram A metade sombria e O cemitério. Eu nunca havia ouvido falar no primeiro, mas adorei a capa e a sinopse, pois escritor atormentado é comigo mesma. Já o segundo tentei ler lá pelos idos de 2013, mas não deu muito certo, pois havia achado arrastado demais e não conseguia terminar nenhuma leitura do Stephen King naquela época. Claramente houve uma evolução entre 2013 e 2019, pois não apenas finalizei a leitura como não conseguia desgrudar do kindle. Talvez o curioso fato de ambas as histórias se passarem na cidade de Ludlow, Maine, seja um dos motivos que me fizeram ficar tão assustada e fascinada por esse lugar assombrado. 

A metade sombria 
Stephen King 
Tradução: Regiane Winarski 
464 páginas 
Suma 
Ano de publicação: 2019 

Sobre o que é: Há anos, Thad Beaumont vem escrevendo, sob o pseudônimo George Stark, thrillers violentos que pagam as contas da família, mas não são considerados “livros sérios” pelo escritor. Quando um jornalista ameaça expor o segredo, Thad decide abrir o jogo primeiro, e dá um fim público ao pseudônimo. Beaumont volta a escrever sob o próprio nome, e seu alter ego ameaçador está definitivamente enterrado. Tudo vai bem. Até que uma série de assassinatos tem início, e todas as pistas apontam para Thad. Ele gostaria de poder dizer que é inocente, que não participou dos atos monstruosos acontecendo ao seu redor. Mas a verdade é que George Stark não ficou feliz de ser dispensado tão facilmente, e está de volta para perseguir os responsáveis por sua morte. 

Histórias sobre escritores atormentados sempre me chamam atenção, pois para além do processo de escrita em si, me identifico bastante com a ideia de um escritor tentando colocar uma história no mundo. Porém, Thad Beaumont não é um escritor qualquer. Ele é uma espécie de alter-ego do próprio Stephen King que, como ele mesmo conta no posfácio da edição da Suma, em dado momento havia criado uma persona cuja identidade assumia para escrever livros que não levassem a assinatura famosa do autor. Mas a coisa não deu muito certo, ele foi descoberto e teve de aposentar sua metade sombria. Contudo, a ideia de que havia outra pessoa dentro dele, uma pessoa com identidade e escrita completamente diferentes da dele ficava latejando em sua mente, esperando ser posta para fora. E assim nasceu A metade sombria, pois quase todo escritor já disse se sentir possuído quando começa a escrever uma obra - e, por experiência própria, a sensação é bizarra demais, é como se apenas sua mão estivesses escrevendo enquanto sua mente é tomada por outro alguém com vontades próprias. 

Apesar de haver elementos sobrenaturais no livro - como os psicopompos, os pardais que guardam a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos -, eles não são o centro da narrativa, ao contrário do que acontece com outras obras do autor. Na verdade, A metade sombria é uma história policial em boa parte do tempo, com apenas alguma pitada de sobrenatural. Thad tinha um pseudônimo que fazia mais sucesso do que os livros que vendia sob seu próprio nome. No entanto, quando o segredo é descoberto, Thad resolve se livrar dele e não ceder a chantagens matando seu outro eu, George Stark. Para isso, é feita uma grande entrevista em uma revista, com direito a foto montada em um cemitério com uma lápide escrita "George Stark, 1975 - 1988, Um cara não muito legal" (foto essa que total me lembrou a que foi feita, com Neil Gaiman e Terry Pratchett, para a contracapa da edição original do livro Good Omens). 

~Crowley e Aziraphale originais ♥~

Bem, tudo parecia tranquilo após a revelação de que Thad Beaumont é, na verdade, George Stark, até que começam a ocorrer assassinatos, todos ligados a Thad, e a polícia o tem como suspeito número um (o único suspeito, na verdade), mesmo sem ele ter cometido crime algum. Aparentemente, Stark voltou do túmulo fictício para se vingar dos responsáveis por sua morte. E a vingança é terrível. 

Esse livro tem as cenas mais vívidas de assassinato que eu já li. Há descrições que literalmente não saíram da minha cabeça desde a leitura (feita há quase dois meses). George Stark é uma espécie de assassino profissional que tem prazer em matar, e isso é deixado bem claro nas páginas escritas pelo titio King. Eu não sou uma pessoa que se assusta com facilidade, mas há cenas ali tão sádicas que parecem exalar a essência do mal e que realmente me deixaram perturbada (e com a promessa de nunca escrever sob um pseudônimo). 

“Mas escritores convidam fantasmas, talvez; junto com atores e artistas, eles são os únicos médiuns totalmente aceitos na nossa sociedade. Eles criam mundos que nunca existiram, populados por pessoas que nunca existiram e depois nos convidam para nos juntarmos a eles nas fantasias. E nós vamos, não vamos? Sim. Nós pagamos para isso." 


O cemitério 
Stephen King 
Tradução: Mário Molina
424 páginas 
Suma 
Ano de publicação: 2013 

Sobre o que é: Louis Creed, um jovem médico de Chicago, acredita que encontrou seu lugar em uma pequena cidade do Maine. A boa casa, o trabalho na universidade e a felicidade da esposa e dos filhos lhe trazem a certeza de que fez a melhor escolha. Num dos primeiros passeios pela região, conhecem um cemitério no bosque próximo à sua casa. Ali, gerações de crianças enterraram seus animais de estimação. Mas, para além dos pequenos túmulos, há um outro cemitério. Uma terra maligna que atrai pessoas com promessas sedutoras. Um universo dominado por forças estranhas capazes de tornar real o que sempre pareceu impossível. A princípio, Louis Creed se diverte com as histórias fantasmagóricas do vizinho Crandall. No entanto, quando o gato de sua filha Eillen morre atropelado e, subitamente, retorna à vida, ele percebe que há coisas que nem mesmo a sua ciência pode explicar. Que mistérios esconde o cemitério dos bichos? Terá o homem o direito de interferir no mundo dos mortos? Em busca das respostas, Louis Creed é levado por uma trama sobrenatural em que o limite entre a vida e a morte é inexistente. E, quando descobre a verdade, percebe que ela é muito pior que seus mais terríveis pesadelos. Pior que a própria morte - e infinitamente mais poderosa. 

QUE LIVRO PERTURBADOR. 
Sério, talvez seja a coisa mais perturbadora que eu já li (minhas dúvidas estão entre O iluminado e Confissões do crematório). Histórias que lidam diretamente com o tema morte sempre mexem bastante comigo pois, por mais que seja algo que me fascine, é o maior mistério da humanidade e um grande medo universal. Mas, de alguma forma, Stephen King conseguiu reunir alguns dos piores medos e fantasias sobre a morte em um único livro, e o fez bem demais. 

Em 2013, tentei lê-lo, mas não deu muito certo porque achei a escrita do titio King arrastada e detalhista demais. É aquilo: todo livro tem seu tempo, e a leitora que eu era naquela época é bem diferente da leitora que sou hoje, que não apenas não achou nada de arrastado no livro como ainda queria mais (ao mesmo tempo em que ficava nervosa a cada página passada, pensando nos horrores que viriam pela frente). A Suma disponibilizou o e-book da edição de 2013 para os parceiros e eu aproveitei para lê-lo antes de ver o filme. Ainda não vi o remake (apenas o clássico, dos anos 80, que é assustador demais), mas não me arrependo de ter entrado no hype e lido o livro em função do novo filme, porque claramente aí está uma decisão acertada. A única coisa que não foi acertada foi emendar um Stephen King no outro, já que agora estou tendo pesadelos com um personagem que sai dos livros pra matar pessoas de forma cruel e inventiva e as enterra no cemitério micmac, o cemitério maldito. 

Apesar do clichê do cemitério indígena amaldiçoado já esperado de todo mundo que cresceu vendo filmes de terror dos anos 80, o cemitério desse livro é realmente terrível. As descrições que o autor faz dele, do "grito de gralhas ao Sul" que pode ser ouvido, até mesmo a forma com que os personagens, quando determinados a enterrar alguém lá e conduzidos pela força sobrenatural que domina o local, atravessam o lodo, troncos caídos e toda a sorte de empecilhos intransponíveis em circunstâncias normais, tudo isso torna o cemitério um personagem vivo nessa história, vivo e eterno, vivo e que comanda a todos no local. 

Fora que: Gage. Gente do céu, pobre do Gage. Por ter visto do filme original, sabia como a história terminaria, mas mesmo assim fiquei torcendo pra que o Gage sobrevivesse, pois morte de criança simplesmente não dá. Agora, se tem algo pior do que a morte do Gage é o capítulo em que o Louis vai lá, despacha a família pra casa dos pais da esposa dele, e desenterra o filho. Inventei de ler isso durante a madrugada e obviamente não dormi mais pensando nos estágios da decomposição do corpo após a morte e o quão terrível é perder um filho - a ponto de mexer com forças sobrenaturais para tentá-lo trazer de volta à vida. 

"Não ultrapasse este limite, doutor, por mais que tenha vontade de fazê-lo. A barreira não foi feita para ser violada. Não esqueça: há mais poder aqui do que o senhor imagina. Isto é um lugar antigo e estará sempre inquieto. Não esqueça!"

Para além disso, que é a coisa mais horrível que já li, adorei a construção de personagem de Louis Creed, o protagonista dessa história macabra. Louis é um médico, lida com a morte todos os dias, estudou sobre isso, não tem lá muitas crenças, é um homem tão racional que chega a irritar quando briga com Rachel a respeito da visita ao "simitério" de bichos com a filha, Ellie. Para ele, a morte tem de ser aceita e enfrentada com naturalidade. No entanto, desde seu primeiro dia como médico da universidade local, quando Victor Pascow morreu de forma trágica em sua frente, Louis foi sendo atormentado de tal forma pelo espírito de Pascow, que lhe infringiu avisos, e pela força avassaladora do cemitério micmac, que foi verdadeiramente levado à loucura, a ponto de esquecer de tudo aquilo que estudou, de suas crenças e quebrar as regras da vida e da morte. 

"Ele se perguntou se em algum lugar lá no fundo, longe de seu comportamento aparente, não estivera sempre a um passo das mais absurdas irracionalidades. E se não era isso que acontecia com todo mundo." 
Ninguém lida bem com a morte e vivenciar o luto, especialmente de uma pessoa próxima, é sempre um estar flertando com a insanidade. A linha bem tênue que separa os nossos atos entre aceitáveis e bizarros é constantemente desafiada quando nos deparamos com a morte. Louis Creed já teria aí motivos suficientes para começar a enlouquecer. Porém, a morte ainda atacou seu filho de dois anos, um bebê que a recém estava aprendendo a falar. E, para piorar, o local onde a família mora é repleto de uma força maligna que, assim como Pennywise em It, acorda de tempos em tempos e se manifesta, levando consigo um bom número de mortos e insanos. 

Como toda boa história sobre limites entre vida e morte, temos um guia que, como Caronte, leva Louis até o ponto de transição. Esse personagem no livro é Jud Crandall, o vizinho octogenário de Louis que viveu tempo suficiente naquele lugar para conhecer todos os seus mistérios. Impelido pela força sobrenatural do cemitério micmac, Crandall leva o vizinho até o local sagrado para enterrar o gato de sua filha quando ele morre. Church, o gato, é o primeiro a ir e o primeiro a retornar, desencadeando uma força que estava dormindo há um bom tempo. 

"Mas um homem planta o que pode... e cuida do que plantou." 

Em 2000, Stephen King escreveu uma introdução a uma nova edição do livro, dizendo que "Quando me perguntam qual é o livro mais assustador que eu já escrevi, a resposta vem facilmente e sem hesitação: O cemitério. O cemitério é aquele que eu coloquei em uma gaveta pensando que eu finalmente tinha ido longe demais. O tempo sugere que eu não fui, ao menos não em termos do que o público aceitaria, mas certamente eu fui longe demais em termos de meus sentimentos pessoais. Para dizer simplesmente, fiquei horrificado com o que eu havia escrito e com as conclusões a que cheguei.". Se o próprio titio King acha que esse é seu livro mais assustador, quem sou eu para discordar? 

"O que acontece quando demoramos muito a mandar embora a coisa que bate em nossa porta no meio da noite é simplesmente isso: desgraça completa." 

1 Comentários

  1. "O cemitério" me deixou três noites sem dormir quando o li, em 2015: era verão, eu me recusava a tirar as cobertas de cima de mim, aí ficava morrendo de calor, suando e lembrando das cenas imaginadas a partir das palavras do King. Cheguei a ler alguns contos do autor depois, mas nenhum chegou nem perto da perturbação emocional que "O Cemitério" me causou...

    Não vi as adaptações cinematográficas do livro, mas lá no canal Entre Planos saiu um vídeo bem legal sobre o clichê dos cemitérios indígenas. Recomendo demais.

    Abraços e bom fim de semana!

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