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A vez em que Ian McEwan errou

(imagem daqui)

No início do ano, quando a Companhia das Letras anunciou que um novo livro do Ian McEwan seria lançado, fiquei atenta. O escritor britânico se tornou um dos meus preferidos após a leitura de Reparação, sua obra-prima. Gosto dele especialmente por conseguir imprimir delicadeza a temas por vezes pesados, e a ideia de um livro de ficção científica escrito por ele me animou. Eu tinha de ler o novo livro do Ian McEwan. No entanto, em abril o escritor disse, em entrevista, que: "Estou mais interessado em Adão como humano do que como máquina. Estou interessado no foco psicológico, em saber o que é a consciência da máquina. Se me perguntarem se é um livro de ficção científica, eu diria que não.". Tal declaração me deixou confusa, pois a ficção científica trata de tais temas e a fala do autor soou preconceituosa aos meus ouvidos. Porém, eu tinha de ler o livro para entender do que ele falava. 

Finalmente terminei a leitura. Foi um processo um pouco demorado, pois estou fazendo meu TCC e os livros que tenho de ler, eles só aumentam. Mas foi bacana. O livro em si é bom, bem escrito, apesar de pedante e desnecessário em muitos momentos. 

Máquinas como eu 
Ian McEwan 
328 páginas 
Tradução: Jorio Dauster 
Companhia das Letras 
Ano de publicação: 2019 

Sobre o que é: Londres, 1982. A Grã-Bretanha perdeu a Guerra das Malvinas. A primeira-ministra Margareth Thatcher tem seu poder desestabilizado ao ser desafiada pelo esquerdista Tony Benn. O matemático Alan Turing vive sua homossexualidade plenamente e suas contribuições para o avanço da tecnologia permitiram não só a disseminação da internet e dos smartphones como a criação dos primeiros humanos sintéticos, com aparência e inteligência altamente fidedignas. 
É nesse mundo que Charlie, Miranda e Adão — o robô que divide a vida com o casal — devem encontrar saída para seus sonhos e ambições, seus dramas morais e amorosos. O novo romance de Ian McEwan desafia nosso entendimento sobre humanos e não humanos e trata do perigo de criar coisas que estão além de nosso controle. 

Charlie é um homem na faixa dos trinta anos que nunca obteve real sucesso em nada. Tentou várias coisas, mas falhou em todas, seja por falta de sorte ou de ânimo para prosseguir. Se sustentando com dinheiro fácil vindo de investimentos feitos pela internet, ao ganhar uma herança decide gastá-la em Adão, um dos primeiros robôs praticamente humanos. Apaixonado por Miranda, a vizinha do andar de cima, Charlie decide dividir o robô com ela, num plano pensado para aproximar-se de Miranda. No entanto, as coisas se complicam. 

É interessante a abordagem que McEwan resolveu trazer em Máquinas como eu. Adão possui sentimentos, apaixona-se por Miranda e chega até mesmo a se masturbar para ela, descartando a possibilidade de estar apenas cumprindo ordens como um robô sexual, mas realmente sentindo desejo por ela e lhe implorando que o permita masturbar-se na frente dela. Apesar de levemente perturbador, é instigante pensar que isso seria possível. Charlie obviamente sente ciúme de Adão e ali se forma um triângulo amoroso bem contrário ao que McEwan disse gostar na literatura. Aliás, por trás de toda a pompa do escritor, o livro possui momentos melosos de extravasão romântica — o que não pode ser considerado um ponto fora da curva, haja vista que seu lançamento do ano passado, A criança no tempo, também possui uma ótima por vezes melosa. 

Apesar de eu gostar bastante da escrita do McEwan e de como ele parece se divertir escrevendo, existem três coisas que me incomodaram nesse livro, a começar pelas observações dele desprezando a ficção científica. Máquinas como eu é claramente um livro de ficção científica, ponto. Não só por existir um robô como figura central da história, mas também pelos dilemas apresentados entre homem vs tecnologia, emoções vs programação, vida biológica vs vida artificial. Existem dezenas de livros da ficção científica que tratam desses temas e é simplesmente desrespeitoso ignorar isso como se a FC fosse um subgênero risível, quando na verdade grande parte do mercado literário se sustenta com a venda desses livros. E longe de mim apoiar aquela máxima elitista de que as editoras precisam vender esses livros para pagar os de qualidade. Isso é ofensivo e completamente mentiroso. Tal pensamento, além de menosprezar autores de FC, também menospreza os leitores, como se eles não soubessem o que é boa literatura. Um grave e estúpido erro. 

A segunda coisa é a forma com que o estupro é tratado no livro. Existe toda uma história envolvendo um cara da escola, Miranda e sua amiga, Mariam. A história até é válida, porém as reflexões de Charlie não, que muitas vezes se sente como se estivesse fazendo um favor a Miranda por amá-la apesar de não ter plena confiança de que ela foi estuprada. Todo livro sai da mente de seu autor e tal raciocínio foi feito por McEwan. Embora não possamos espelhar o autor em seus personagens, pois grande parte da criação literária se dá pelo fato de poder construir novas pessoas e situações que não correspondem a nós, não foi fácil ler certos trechos que tratam do assunto e continuar a leitura. Por vezes quase desisti do livro, apesar de gostar dos rumos que a história tomou. Foi difícil. 

Em terceiro, os comentários políticos do livro são simplesmente exaustivos. Necessários para se lembrar que estamos lendo sobre um passado em uma linha de tempo alternativa, mas praticamente não afetam as personagens e causam cansaço no leitor, que ora está lendo sobre a nova travessura de Adão, ora está tentando escapar de páginas e mais páginas sobre a greve dos lixeiros em Londres. 

Mas gostei das reflexões, gostei de um robô humano que desafia o conceito de vida, gostei de um dos personagens ser Alan Turing, agora um respeitado cientista que vive abertamente com seu marido (a história desse homem me dá uma tristeza tão grande que achei ele como personagem uma bela reparação histórica). No geral, o sentimento foi bom e acho que McEwan acertou em colocar os robôs se suicidando por não suportarem viver em um mundo tão injusto com uma existência vazia. Nada mais humano do que isso. Mas há ressalvas e, embora o livro tenha seu lado bom, sempre haverá uma mancha nele pelas declarações elitistas do autor, o que claramente foi um erro grotesco.

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