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Mary Stuart merecia mais

Existem poucas mulheres com quem a História foi gentil. Em termos gerais, por mais esforçadas que tenham sido, talentosas, que tenham trabalhado arduamente ou que tivessem uma das mentes mais brilhantes de seu tempo, mulheres são lembradas apenas por uma coisa: seu gênero. Isso acontece com Catarina, a Grande, Ana Bolena e, no rol das rainhas cuja história ninguém conta direito, Mary Stuart, a eterna Rainha dos Escoceses — e, como gostam de enfatizar, uma mulher fatal, regida muito mais por suas paixões do que pelo dever. Até que ponto isso é verdade, no entanto? Embora a vida de uma pessoa seja um emaranhado de interpretações do bom, do honesto e do errado, quando olhamos para os fatos que cercam a vida da rainha escocesa, não encontramos uma mulher voraz e dominada por seus instintos sexuais. Pelo contrário: encontramos uma lutadora, alguém que sabia seu lugar e estava disposta a enfrentar a tudo e a todos, muitas vezes se anulando, para manter seu poder. 


Mary Stuart é uma das figuras monárquicas mais controversas da história. Por muitos anos vista como uma mulher mesquinha que tentou usurpar o trono da gloriosa Elizabeth Tudor, ou Elizabeth I, como ficou mais conhecida sua prima e rainha da Inglaterra, apenas há poucos anos passou a ter sua imagem aliviada das pesadas críticas que recebeu desde que decidiu lutar por um trono que era seu por direito. Parte do mérito por essa nova visão mais benéfica que a figura de Mary ganhou aos olhos da cultura pop é da série Reign, que retratou a vida dela de forma a atingir um público jovem que não conhecia direito a história emblemática da eterna rainha da Escócia. 

São muitas as obras de ficção que buscam retratar a vida de Mary Stuart. No século passado, foram feitos pelo menos dez filmes que mostraram episódios-chave da vida da rainha condenada e, no início deste, tivemos a produção de uma das séries históricas com maior fandom até agora: Reign. De 2013 a 2017, a CW exibiu a história de Mary durante quatro temporadas que contaram sua trajetória desde a chegada na França até sua execução. Muito criticada por sua falta de veracidade histórica, Reign nos apresenta a jovem Mary (Adelaide Kane) no momento em que deixa seu esconderijo, na França, e vai para a corte francesa para casar com Francis Valois (Toby Regbo), o herdeiro do trono francês, a quem estava prometida desde a infância. A ideia era tanto fugir dos protestantes, que se rebelavam contra ela na Escócia, tentando acabar com seu reinado antes mesmo que ela pudesse de fato governar, quanto unir forças com a França, uma monarquia também católica, para obter em definitivo a independência da ameaça protestante inglesa e estabelecer um governo sólido. 

A chegada de Mary na França causa problemas. A rainha Catarina de Médici (Megan Follows), mãe do delfim, a princípio apoia o que aquela união pode representar politicamente para o reino. Contudo, após receber uma profecia de Nostradamus (Rossif Sutherland), predizendo a morte de Francis, Catarina se arma contra Mary e maquina diversas formas de tirá-la do caminho do filho, mesmo que precise ir contra a vida de uma menina por quem até então ela nutria carinho. Esse é o plot básico de Reign, que desde seu primeiro episódio se mostra como uma série histórica não-tradicional, tomando muitas liberdades narrativas e suavizando a figura de Mary e a corte francesa da época. Todavia, ainda que a série tenha contado a trajetória de Mary desde a infância até sua morte, aos 44 anos, e tenha sido o motivo para que toda uma geração conhecesse mais essa figura que, por vezes, é tão apagada em narrativas de rainhas — ora por ser sumariamente desprezada como uma rainha menor já que, aos olhos misóginos de alguns historiadores e da própria produção artística, ela era puro sentimento e pouca razão, motivo pelo qual acabou aprisionada e morta; ora porque ela foi contemporânea de grandes nomes que são idolatrados até hoje e, de certa forma, ofuscam sua imagem, como o de sua prima, Elizabeth I, e o de sua sogra, Catarina de Médici, Reign é mais um desserviço histórico do que uma boa série sobre uma figura importante como Mary. Não existe problema em fazer ficção histórica, mas é preciso tomar cuidado para não auxiliar ainda mais no retrato errôneo de alguém, especialmente quando esse alguém é uma mulher. 

Seja como for, Mary Stuart é uma das figuras históricas mais injustiçadas e, embora haja registros suficientes para que tal imagem seja corrigida, não é feito um esforço real nem por parte do ensino de história, nem pela arte. Reign é uma série divertida que faz com que nos apaixonemos pelo casal Mary e Francis, mas termina por aí: ela está o mais longe possível da história real, mostrando uma Mary regida por suas paixões, inconstante e que abriria mão de seu próprio trono em nome do amor. Entre um enredo rocambolesco de uma série agradável, mas cujos fatos históricos foram livremente distorcidos, é possível olhar para Duas Rainhas (Mary Queen of Scots) e ser levado a pensar que finalmente uma obra série foi feita, à altura da vida de Mary. Contudo, isso não é verdade. O que temos no filme de Josie Rourke é mais uma versão misógina da rainha dos escoceses. 

Em Duas Rainhas, somos apresentados a Mary (Saoirse Ronan) já após sua fase francesa. Apesar de ter sido elevada como rainha da Escócia apenas seis dias depois de nascer, na ocasião da morte de seu pai, o rei Jaime V, em 1542, ela logo foi enviada para a França. Aos cinco anos de idade, Mary morava em terras francesas enquanto a Escócia era governada por regentes inspecionados por sua mãe, Marie de Guise, que permaneceu na corte. Mary cresceu como uma francesa e lá viveu durante treze anos, recebendo educação formal de uma nobre francesa e tendo o amparo da corte, em especial da família real, os Valois. Embora tenha sido acompanhada por sua própria corte — as quatro Marys, que lhe serviam como damas de companhia, e dois meio-irmãos ilegítimos —, Mary era mais francesa do que escocesa, o que certamente não lhe facilitou a vida quando, aos dezenove anos, retornou ao seu reino para assumir o papel como rainha. Com a morte de Francis, o príncipe (e, por um breve período, rei da França), Mary deixou para trás sua vida entre os Valois e decidiu sentar-se em seu próprio trono de direito, tirando o governo das mãos de seu irmão, James Stuart, em 1561. 

As reservas que seu povo tinha com ela logo se transformaram em rejeição, pois é bem verdade que Mary era mais francesa do que escocesa e quase nada sabia sobre seu próprio reino. O primeiro erro do filme começa aí: Saoirse, a atriz que interpreta Mary, foi dirigida de forma a possuir um sotaque escocês fortíssimo. Entretanto, como a verdadeira Mary fora criada na corte francesa, é pouco provável que ela falasse de tal forma — se é que falava o dialeto escocês presente em muitas tribos locais, a língua de seu povo. Esse é um ponto que, a princípio, não parece de grande relevância: Duas Rainhas é um filme de ficção histórica que necessita de recursos audiovisuais para dar certo e fazer com que o público identifique traços específicos nas personagens. Porém, o sotaque de Mary Stuart não é mero detalhe: foi ele um dos motivos para que seu próprio povo a visse como uma estrangeira e não a aceitasse no trono. Mary falava como uma francesa, arranhando o dialeto escocês — esse é um ponto central de sua persona. Não é possível fugir disso quando falamos de Mary Stuart, a rainha que perdeu tudo, pois sua fala, seu modo de agir e sua criação estão intrinsecamente ligados a seu trágico destino. Assim como Ana Bolena, a segunda esposa de Henrique VIII, que também possuía maneirismos franceses e era vista com escandalosa desconfiança por isso, Mary também padeceu pelo que representava: uma forasteira despudorada, com costumes da corte francesa, que não respeitava nem a Deus, nem a seu povo, nem ao dever sagrado de uma mulher. A mentalidade da época não era fácil, especialmente entre a misógina nobreza escocesa. Quando um filme tira Mary desse contexto, ele a descaracteriza, não respeitando sua memória ou os motivos que a levaram a percorrer seu trágico caminho. 


Em se tratando de figuras históricas, o que devemos fazer é preservar a veracidade de suas biografias. É bem verdade que seria impossível rodar um filme ou uma série que obedecesse à realidade completamente, ainda mais se tratando de acontecimentos com mais de quatro séculos de idade. No entanto, muitas são as mulheres que tiveram suas vidas apagadas por boatos maldosos e olhares misóginos de historiadores e, posteriormente, de artistas do audiovisual. Preservar a memória tal como ela é — sem apelar para os clichês arquetípicos da santa, da pecadora, da mulher regida por suas paixões, mas apresentando as pessoas como elas foram de verdade — é tarefa de todos nós enquanto sociedade. 

Além do sotaque, existe um sério problema de figurino no filme. Mary Stuart foi uma das mulheres mais retratadas de sua época — assim como Elizabeth, sua prima. Existem diversos retratos de ambas disponíveis hoje em dia e também registros de pessoas que conviviam com as duas e que comentavam o que as rainhas usavam e como se portavam. O século XVI, naqueles países, foi repleto de uma moda vistosa. No filme, vemos figurinos contidos — Elizabeth, interpretada por Margot Robbie, está mais próxima da realidade em Duas Rainhas do que Mary mas, mesmo tendo sua personagem vestida de forma um pouco mais verídica do que a da prima, existem muitos equívocos no figurino que estão ali para conversar com a narrativa escolhida pela diretora. 

O filme, baseado no livro My Heart is My Own: The Life of Mary Queen of Scots, de John Guy, um historiador cujo foco de pesquisa é o período Tudor, procura centrar sua narrativa dividindo as personagens históricas entre vítimas, fantoches e vilões. De acordo com ele, o grande vilão da ruína de Mary é William Cecil (Guy Pearce), conselheiro de Elizabeth. A questão problemática nisso — e que envolve o figurino de ambas as rainhas — é que, enquanto se apresenta o conselheiro principal como vilão, mostra-se uma Elizabeth mais contida que utiliza da pompa para ser vista, mas que não é ouvida nem temida. Elizabeth era uma mulher muito vaidosa, vaidosa a ponto de ter mandado destruir todos os quadros que a retratavam em seus dias de velhice, pois não queria que sua imagem ficasse associada ao que ela considerava fraqueza e decadência. A Elizabeth do filme, entretanto, corre pelo palácio atrás de um homem, em roupas de dormir e com o rosto coberto de manchas causadas pela varíola, enquanto uma corte debochada ri dela e afasta-se lentamente, tentando observar ao máximo aquela cena ridícula. No filme, a rainha perde seu poder aos poucos e anula sua feminilidade para ser um dos homens, mas é controlada por seu conselheiro. A história real não é essa. É bem verdade que uma rainha daquele tempo não conseguiria governar sem o apoio de seu conselho e de seus nobres, mas Elizabeth era tudo, menos submissa. Ela utilizava a moda para amedrontar as pessoas, não somente para maravilhar. Seus vestidos eram repletos de joias e detalhes coloridos que a faziam ser vista e reconhecida onde quer que estivesse. No filme, a única extravagância mostrada são as perucas, utilizadas após uma perda de cabelo, e a maquiagem branca que cobria o rosto para esconder as manchas de varíola. Mas isso não faz jus a quem Elizabeth realmente foi. Talvez, se o filme tivesse outro propósito, tal erro poderia passar incólume, mas Duas Rainhas se propõe a mostrar as fraquezas sentimentais de suas personagens principais — fraquezas que podem ser lidas em seus figurinos. 

Enquanto isso, Mary Stuart se veste como suas damas de companhia. Um dos momentos cômicos do filme se dá quando Lorde Darnley (Jack Lowden) visita a corte escocesa e, não sabendo quem é a rainha, improvisa um poema para averiguar as reações das damas de companhia e adivinhar quem, dentre elas, seria Mary. O absurdo disso transpassa a liberdade criativa de um filme. Na época, roupas eram questão de personalidade e reconhecimento. Elizabeth I possuía, inclusive, uma lista detalhada de que peças de roupas, tecidos e joias cada pessoa poderia usar em seu reino de acordo com sua posição social. Mary não era uma súdita inglesa, mas uma rainha em seu próprio direito, e é impensável que ela se vestisse como uma de suas damas. 


A ideia de que Mary era próxima e querida para suas damas de companhia é bem equivocada. Aqui não me sinto no direito de julgar sua personalidade ou seus afetos, mas é preciso dizer que ela era uma rainha e sabia se portar como tal de acordo com as normas da época — o que significava não dar muita intimidade para pessoas socialmente inferiores a ela. Mary, além de ser uma rainha desde o berço, foi criada na França e teve influência direta de uma das maiores mentes políticas do século XVI: Catarina de Médici, sua sogra e rainha consorte (e, posteriormente, regente) da França. Catarina é vista de forma completamente misógina até hoje. Como não atendeu aos clichês de uma esposa real e tomou a liderança, tendo um projeto político de poder próprio, passou à história como vilã. Mary aprendeu muito com ela mas, infelizmente, não teve o mesmo suporte da ex-sogra. No entanto, uma das lições que Mary tirou da corte francesa e da ex-sogra foi a do orgulho real. Ela jamais se colocaria em uma posição de igualdade ou inferioridade mediante qualquer pessoa, pois acreditava que seu status como rainha era um direito divino e somente o Papa, e Deus, estavam acima dela.

Para além disso, seu caráter também é distorcido no filme. Personificá-la como uma figura melancólica e passional é um desserviço histórico e mais uma comprovação de que, não importam quantos séculos passem, mulheres ainda serão subestimadas. Antes de ser uma mulher que teve três casamentos e foi decapitada por sua prima, Mary Stuart era conhecida por ser uma exímia amazona, dominar dança e montaria, tocar instrumentos musicais, conhecer diversas línguas, ser admiravelmente atlética e exibir um porte e beleza incomuns para a época (ela media 1,80m e usava roupas vistosas). Ela se destacava onde quer que estivesse e certamente não deveria ser lembrada por suas associações românticas. 

Duas Rainhas força uma narrativa que não funciona: a de que Mary e Elizabeth são aliadas naturais que, por causa dos homens ao seu redor, acabam se distanciando e tornando-se inimigas. Entretanto, ainda que ambas trocassem cartas muito amorosas, a análise que pode ser feita das palavras enviadas de uma a outra é a de um jogo político passivo-agressivo, onde nenhuma estava disposta a dar o braço a torcer, e tentava convencer a outra a aceitá-la como soberana incontestável da Inglaterra e da Escócia. Tanto Mary quanto Elizabeth eram mulheres fortes e decididas, que sabiam o valor de suas posições. Mas, enquanto Elizabeth teve de lutar para alcançar o poder — como filha de Henrique VIII e Ana Bolena, a segunda rainha, cujo casamento foi anulado após três anos, uma filha, um feto abortado, diversas intrigas e a falta de um príncipe herdeiro, culminando na execução da até então rainha consorte —, tendo esperado anos até que sua vez de reinar chegasse e precisando convencer o conselho, ao mostrar força e aliados políticos, que ela era a herdeira legítima do trono, Mary nasceu rainha, foi criada como realeza na França e teve todos os benefícios da melhor educação para mulheres e monarcas na época. Sua luta começou quando Francis morreu e ela deixou a corte francesa para ser uma rainha presente na Escócia — levando a cabo sua ideia de que, por Elizabeth ser filha de uma mulher cujo casamento foi anulado, portanto, uma bastarda, ela, Mary, era a verdadeira herdeira do trono inglês.

A amizade entre elas, mostrada no filme, é falsa, e suas personalidades foram distorcidas em prol de uma mensagem de feminismo avant-garde. É muito difícil entender qual era a verdade da vida de alguém que existiu há tantos séculos, mas os documentos que restam da época nos indicam que Mary tomou más decisões num local onde ser mulher era ser considerada inferior, o que certamente a deixou vulnerável, especialmente porque ela era uma mulher católica e intempestiva num país de maioria protestante. Os desdobramentos de seu segundo casamento a enfraqueceram politicamente e, por fim, ela estava sozinha, restando apenas confiar na prima que nunca havia visto e com quem travara uma batalha velada pelo direito de sentar no trono da Inglaterra. Mas, embora tenha tomado decisões equivocadas, Mary estava longe de ser uma princesa desamparada no alto da torre que sucumbiu por suas emoções, assim como Elizabeth não era, de forma alguma, um fantoche político de seus conselheiros reais, como é vergonhosamente mostrado no filme. Ambas foram mulheres em cargos máximos de poder que não abririam mão de suas posições estratégicas para salvar a outra. No momento em que coube a Elizabeth salvar a vida de Mary, ela fez o máximo para conservar seu próprio poder e, ainda assim, não aborrecer abertamente a prima, enquanto lhe deixava em cativeiro rodeada por súditos protestantes cuja confiança a rainha Tudor tinha. 


Ao passo que é importante mostrar, em produções históricas, a misoginia presente na sociedade e como mulheres tinham limitações dentro de um determinado espaço de tempo, o que resultava em situações catastróficas, também é de suma importância preservar a veracidade de narrativas de mulheres reais. Nossa noção atual de feminismo não existia na era Tudor e não é correto impô-la às vidas de mulheres que morreram há mais de quatrocentos anos. Duas Rainhas força uma narrativa feminista que não existiu. Mary e Elizabeth jamais se encontraram, o afeto que professavam uma pela outra era passivo-agressivo, um verdadeiro jogo de poder, e foi Elizabeth quem mandou cortar a cabeça de Mary no final das contas — ainda que, posteriormente, tenha negado o fato de ter tomado a decisão e assinado a sentença de morte da prima e rainha, pois temia o julgamento divino por ter o sangue de uma rainha ungida nas mãos. 

Enquanto pensava sobre os problemas do filme, fui acometida pela sensação de que estes são semelhantes àqueles encontrados em Game of Thrones, especialmente nas jornadas de convivência entre personagens femininas. É fato comum que George R. R. Martin tem como inspiração para sua série de livros a Guerra das Rosas, que precedeu a era Tudor, baseando-se livremente em diversas personagens históricas da realeza inglesa da época para traçar o destino ao Trono de Ferro. Olhando dessa maneira, é possível enxergar em Sansa Stark (Sophie Turner) e Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) uma sombra de Elizabeth I e Mary Stuart, respectivamente. Suas trajetórias como mulheres em busca de poder no meio de uma guerra travada por homens é algo que enxergamos ao longo da história inglesa, especialmente nesse período em particular. Mas enquanto Game of Thrones, apesar de suas falhas, consegue manejar a dinâmica entre personagens femininas sem enfraquecê-las por questões de gênero, Duas Rainhas incorre ao erro de, ao tentar humanizar Mary e Elizabeth, estereotipá-las da pior maneira possível. Em determinados momentos, é possível enxergar construções narrativas que a série possui, como o uso da violência gratuita contra mulheres e cenas de sexo que são, em verdade, estupros. Não odeio Game of Thrones, apesar de odiar tais escolhas e criticá-las, pois a série conseguiu ir além e nos apresentar personagens femininas interessantes. Além do mais, ela não obteve sua fama a partir de uma pretensa propaganda feminista, vendendo “mulheres fortes”. Mas consigo veementemente odiar um filme que se propõe a mostrar as vidas de duas rainhas e faz o desserviço de colocar duas cenas de estupro em duas horas e tantas outras de humilhação por gênero, envolvidos num bonito papel de presente onde se lê “feminismo”.


Este texto foi originalmente publicado no Valkirias

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