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O tempo para dentro

"Interior (Model reading)", de Edward Hopper, 1925

Em 2014, quando meu ex interrompeu o noivado via e-mail e sumiu de todas as redes sociais, trocando até mesmo de número de celular, eu tive um nervous breakdown e passei meses dentro de casa. Foram meses sem sair pra rua, sem tomar sol, sem falar com ninguém além dos meus pais e somente escrevendo num blog obscuro que havia criado com o propósito de me livrar daqueles sentimentos péssimos. 2014 foi um ano bizarro em muitos sentidos, mas também foi o ano que me fez perceber que eu posso sobreviver a mim mesma. Ninguém aqui é imortal, mas sobreviver a si mesmo durante momentos difíceis já é uma boa coisa, especialmente quando esses momentos envolvem ideação suicida e isolamento social. 

Durante aqueles meses, tudo o que eu fazia era escrever, chorar, dormir e assistir Gilmore Girls. Foi a primeira vez que vi a série e a maratona das sete temporadas da vida das garotas Gilmore me confortou de inúmeras formas. Vi e revi os episódios diversas vezes durante aquele período e, aos poucos, fui retomando a coragem de sair pra rua, ver o mundo, conhecer pessoas e continuar. Entre um episódio e outro, eu também assistia a How I Met Your Mother e me sentia consolada com as frases reflexivas de Ted Mosby dizendo que tudo ficaria bem, pois sua história ainda não havia terminado. Embora sejam séries bem diferentes, Lorelai e Rory Gilmore também possuem seus momentos de reflexão - que são mais mostrados durante longos arcos do que em pequenos monólogos. A experiência de assistir as duas séries me fez sentir que um dia aquilo acabaria e eu ficaria bem. Um dia eu poderia sair de casa. Um dia eu poderia conhecer outras pessoas. 

O isolamento social deste momento não é por causa de uma decepção amorosa nem nada do tipo, mas porque o mundo está sob uma pandemia. É bizarro pensar em como a história é cíclica e, junto da volta dos anos 20, passamos agora por algo semelhante ao que aconteceu há um século. Estou me preparando desde o início do ano para este momento - na verdade, estou me preparando desde sempre para o agora, já que sou uma pessoa introvertida por natureza e que sempre preferiu ficar em casa a sair para baladas, festas e afins -, mas, de certa forma, não esperava que isso fosse acontecer de maneira tão brusca e com tanto despreparo vindo de fora. É despreparo governamental, despreparo social, despreparo cultural - parte do mundo está desesperada enquanto a outra parte parece mergulhada em um torpor negacionista. Passei uma semana inteira chorando por qualquer coisa, tendo pensamentos catastróficos e crises de ansiedade. Então eu dei play em Gilmore Girls

Pode ser que isso tenha sido reflexo daqueles longos meses que vivi em 2014, isolada em casa, tentando me reconstruir em meio a um cenário dolorosamente surreal para mim. É bem verdade que as experiências, em suma, não se comparam, já que uma envolve um rompimento e a outra uma calamidade global. Entretanto, em termos emocionais, ambas lidam com perdas e medos do futuro - e uma ansiedade avassaladora que me deixa sem dormir e sem concentração para ler um livro sequer. Voltar a Stars Hollow parecia ser uma alternativa fácil e lógica e foi o que fiz. Entrei na minha concha metafórica e revivi desde o momento em que Rory começa sua jornada em Chilton até sua formatura, em Yale. 

Da primeira vez que assisti, me identifiquei muito com a Rory: uma crazy book lady que queria cursar jornalismo e adora cultura pop. A Rory do início da série é aquela personagem que ninguém acredita que é a mesma pessoa que lê Melville e cita reality shows obscuros. Agora, porém, não me identifico mais tanto com ela - talvez apenas tenha permanecido a questão dos livros mesmo. Apesar de eu estar me formando em jornalismo, não sei se esse é bem o meu futuro (e este nem me parece um bom momento para pensar no futuro, anyway) e não gosto da personalidade dela, que acho irritante e mimada. Também passei a gostar menos da Lorelai, que é extremamente ingrata com os pais, ainda que eles sejam dominadores. Sigo gostando da Paris, amando o Jess e o Luke e querendo mais episódios com a April. No entanto, uma das coisas de que não gostei da primeira vez e gostei menos ainda agora é de Logan e sua Life and Death Brigade. Logan é o combo de quase tudo o que detesto em um cara: ele se sente superior aos outros por ser rico, trata pessoas que considera inferiores como lixo (vide o tratamento que dá a Marty só porque o rapaz trabalha como garçom para pagar a faculdade), é irresponsável, acha que tudo pode ser resolvido com dinheiro e não dá a mínima para nada que não gire em torno dele. Ainda assim, Rory mantém um relacionamento com ele durante anos e vira amiga dos rapazes da Life and Death Brigade, ressaltando o aspecto mais insuportável de sua personalidade: a menina rica, inconsequente e mimada. Mas, embora eu continue detestando com todas as minhas forças aquele bando de ricos privilegiados, gosto de pensar que o lema adotado por eles - In Omnia Paratus - é excelente para os dias atuais.

O lema nunca é cumprido, de fato, pelos membros da Life and Death Brigade. Para eles, é uma questão de se aventurar o máximo possível e fazer escolhas irresponsáveis, pulando de lugares altos e brincando com a vida. A frase em latim significa "pronto para tudo", ao passo que eles não estão prontos para nada, já que nunca tiveram de passar por nenhuma situação verdadeiramente difícil e, portanto, não prepararam seus espíritos. Mas, apesar desse contexto ridículo de problemas da classe média (que nem é classe média, já que todos são riquíssimos de uma forma absurda e desconcertante), existe uma beleza em ter essa frase como lema de vida. 

Desde que essa distopia começou, pensei que não conseguiria escrever uma frase sequer durante esse período histórico e terrível que estamos vivendo, mas vejo que estava enganada. Após passar uma semana basicamente chorando e tendo crises de ansiedade, voltar a Stars Hollow me fez lembrar que esta não é a primeira vez que o mundo acaba e, embora a situação seja desesperadora, existem coisas nas quais podemos nos agarrar para sobreviver. Bastou mergulhar em algo confortável e utilizar a arte para entender a vida que ontem já consegui começar a voltar ao normal - tweetei sobre como a Sophie Turner deveria interpretar a Elizabeth I, assisti a alguns documentários sobre os Tudors e a Guerra das Rosas, especialmente no contexto histórico de Game of Thrones, baixei alguns filmes para assistir, vi Mamma Mia! Here we go again, o que foi uma excelente decisão, fiz alguns exercícios EAD de uma aula absurda e comecei um curso online sobre Historical Fiction, só porque eu amo o assunto. 

A vida está sempre acabando em algum lugar e momentos como este nos fazem lembrar de nossa fragilidade e de como não temos controle algum sobre nossa narrativa ou sobre o quanto viveremos. Mas também nos fazem lembrar de olhar para dentro, apreciar o que temos de bom e seguir em frente. O que estamos vivendo não é sobre mim, não é sobre o indivíduo, mas sobre o coletivo. É uma crise de saúde pública, porém também é uma crise de valores, uma crise governamental, uma crise social. No entanto, embora o coletivo deva ser pensado acima do indivíduo neste momento, enquanto pessoas só podemos fazer o máximo para preservar a nós e ao outro ficando em casa e tomando as medidas preventivas necessárias. Ao mesmo tempo, somos pessoas e nossas narrativas sempre serão sobre nós em nossas mentes, somos os protagonistas de nossas histórias. Nossas vidas estão mescladas com a roda do tempo, com a roda dos acontecimentos históricos, com todos aqueles que já foram e que ainda serão e lembrar disso pode ser um grande peso. Não posso cuidar do coletivo para além do isolamento social, mas posso cuidar de mim e dos que estão próximos a mim - e fazer o meu melhor para que este momento não seja ainda pior. In Omnia Paratus - respirar fundo e tentar estar pronta para tudo, porque preciso estar. 

1 Comentários

  1. se eu parar pra pensar nesse momento (prefiro não, pois ansiedade também bateu por aqui), a unica coisa que vem a minha cabeça é: estamos mesmo vivendo isso ou é um delírio coletivo? é o tipo de acontecimento que parece realmente ficção... quantos filmes já não vimos sobre isso?
    no mais, acho que os governos estaduais estão se saindo bem, o que não podemos dizer do 'gestor maior' né, que parece estar em negação...
    só resta nos acalmarmos e viver um dia de cada vez, esperando pelo melhor e se cuidado para o melhor.
    beijos e se cuida! :*

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