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Um pouquinho de coragem para olhar para fora

Por toda a minha vida eu fui uma estudante. Quando as pessoas me perguntavam o que eu fazia, eu simplesmente dizia que estudava. Fundamental, Médio, Técnico, Graduação, Especialização... Eu estudo. Passei por diversos cursos, aprendi muitas coisas, fiz inúmeros trabalhos em grupo, criei projetos e descobri que posso ser basicamente tudo o que eu quiser - basta tentar. Mas, embora tenha tido alguns empregos (e estágios e voluntariados e freelas), sempre fui, em primeiro lugar, uma estudante. 

O que serei agora, ao final do semestre? 

Por Lugares Incríveis, a leitura da vez

Minhas aulas começam amanhã. É o meu último semestre no Jornalismo: faltam apenas quatro cadeiras para a tão sonhada formatura. Dia desses, encontrei um diário, em estilo bullet journal, antes que bujos começassem a se tornar moda, onde fiz diversas colagens e anotações sobre quem eu seria dali a dez anos. Escrevi aquilo aos quinze e cá estou eu, aos vinte e seis recém-completos, e marcando um check em basicamente tudo o que idealizei para mim. Mas não sei se meu plano foi muito completo, afinal de contas, sim, eu escrevi lá que dali a dez anos seria uma jornalista e editora de uma revista de cultura pop. Levou um ano a mais do que o previsto, mas cá estou eu, a menos de cinco meses da formatura e, de fato, sendo editora de um veículo de cultura pop. É bem verdade que nada disso aconteceu como eu imaginei, mas a trajetória tem sido bem interessante e o resultado é satisfatório. Contudo, parece que eu não fiz grandes planos concretos para o que vai acontecer daqui pra frente. 

E agora, José? 

Não quero deixar de estudar, mas preciso me abrir para novas possibilidades e sair um pouco da bolha acadêmica para adentrar no mundo real de trabalhos estranhos e boletos a pagar. Acho que o grande problema disso não é a dificuldade em adentrar nesse mundo e deixar a minha bolha de sala de aula para trás (apesar disso claramente também ser uma questão), mas o real problema está na quase total paralisia que o medo de fracassar me deixa. Passei todos esses anos, desde o Ensino Médio, dizendo que seria essa grande jornalista e escritora, que escreveria para pessoas e elas entenderiam como enxergo no mundo e que formaríamos um vínculo, um elo, algo inquebrável. Fiquei anos pensando que um dia estaria formada e seria essa grande escritora interessante, porém misteriosamente distante, que vive para a literatura e respira arte. Mas a vida não é idílica. E, ainda que fosse, não acredito mais em um idílio puramente feito de arte, de escrita, de literatura. Nós criamos a partir de experiências e sentimentos. Não é possível mergulhar apenas na arte pela arte sem virar uma pessoa insuportavelmente auto-centrada. E não é isso o que quero. 

Enquanto escrevo, organizo meus pensamentos a respeito do rumo que tomarei a partir de agora. Estou escrevendo dois projetos de mestrado - um para estudos literários, outro para o campo da comunicação. Não sei qual deles dará certo, não sei nem ao menos se um deles dará certo, mas preciso tentar. Por mais que me sinta feliz por estar em vias de me formar, não me vejo longe de uma sala de aula ainda - tenho muito a aprender, muito a descobrir, muito a produzir e me encantar com o novo, o meu novo, o novo que ressignifica meu mundo. Mas não posso deixar de me perguntar se esse desejo de cursar um mestrado tão depressão não é apenas a urgência do medo de finalmente ter que encarar a mulher que quero ser e dizer: pois é, agora você tem todo o tempo para fazê-la nascer. 

Não sei se tenho o que é preciso para esse parto, mas vou dar o meu melhor. Só preciso de um pouquinho de coragem para olhar para fora de mim e ver a mulher que me espera. 

1 Comentários

  1. O ultimo semestre da faculdade pode ser assustador mesmo, mas é só mais uma etapa da sua vida que chega ao fim. Você ainda pode decidir por um mestrado, doutorado e seguir na área acadêmica, pq não?! Você escreve muito bem e seja lá qual for seu futuro, será um futuro de sucesso!

    Super beijo,
    Carolina Justo, Nome do seu Site

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