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O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett

Embora a literatura seja uma ponte entre mundos, são poucos os livros que realmente conseguem nos transportar de uma realidade infeliz e ansiosa para uma mágica e esperançosa. E, ainda que isso possa ser dito de alguns livros, é na literatura infantil, ou infantojuvenil, que tal abrigo acolhedor é mais palpável. Vivemos tempos em que tudo parece estar em ruínas e a vida como conhecemos foi interrompida. Nesses momentos, a união virtual pode ser uma verdadeira salvação e a literatura, como sabemos, é uma das mais belas formas de ignorar a vida. Dessa forma, ler O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett, foi a escolha certa, seja por ser uma história infantil sobre crescimento interior e cuidado, seja porque muitas de nós crescemos com a imagem de Mary Lennox descobrindo o jardim em nossas mentes.  


O Jardim Secreto foi originalmente lançado em 1911 e sua autora já era uma conhecida escritora infantil cujo sucesso anterior mais famoso é o querido A Princesinha, também transformado em filme em 1995. No entanto, enquanto A Princesinha possui uma atmosfera calorosa e divertida, O Jardim Secreto é uma história hostil à primeira vista, que nos desperta curiosidade, mas que demora um pouco a mostrar ser da mesma autora do tão amado livro já citado. Não digo isso de forma desdenhosa: essa atmosfera hostil é justamente correta de acordo com as condições descritas na história de Mary Lennox, uma menina que fica órfã aos 9 anos de idade após uma epidemia de cólera na Índia, onde morava com os pais, dizimar a família e boa parte dos servos. Abandonada em uma casa onde apenas corpos sem vida permaneciam, Mary é encontrada por acaso em seu quarto, sem saber o que estava acontecendo — e havia um bom motivo para que ela não o soubesse: além de ser apenas uma criança, ela era acostumada a passar seus dias sozinha, não tendo o carinho ou cuidado da mãe nem a presença do pai e sendo sumariamente ignorada pelas pessoas que trabalhavam em sua casa por possuir um gênio difícil. 

“Desde que ela estivera vivendo na casa de outras pessoas e não tinha mais sua aia, começara a se sentir solitária e a ter pensamentos estranhos que eram novos para ela. Começara a se perguntar por que parecera não pertencer a ninguém, mesmo quando o seu pai e sua mãe estavam vivos. Outras crianças pareciam pertencer a seus pais, mas ela nunca aparentara de fato ser a menina de alguém.” 

É um início duro para um livro tão amável, mas ele nos explica os motivos por que Mary é uma criança tão azeda. Ela não gosta de ninguém, trata a todos com superioridade e distância e sente-se deslocada onde quer que esteja. É fácil detestar Mary já que ela não se esforça nem um pouquinho para ser agradável ou gentil. No entanto, a decisão da autora em retratá-la de tal maneira é acertada já que, aos poucos, compreendemos que a arrogância e a indelicadeza de Mary não é fruto de um mau caráter — pelo contrário. Mary é desagradável porque nunca lhe ensinaram a ser o contrário. Como jamais foi querida, cuidada e amada, ela não sabe amar. Às vezes, é bem fácil esquecer que crianças são reflexos daqueles que as educam, mas essa noção era particularmente bem comentada no círculo intelectual que Burnett, a autora, frequentava — sabemos disso tanto através de seus livros e cartas quanto de suas conexões com pessoas de destaque da época, como a também escritora Louisa May Alcott, de quem era amiga, e que também escreveu sobre educação infantil — à sua maneira. 

Assim que é encontrada, após a morte de seus pais, Mary é levada para a casa de seu tio, na Inglaterra. Até então, ela mal sabia que tinha um tio, já que seus pais simplesmente não lhe davam atenção suficiente para conversar com ela sobre parentes ou sobre o país natal, que o fará levá-la até o interior inglês para conhecer a família distante. Chegando lá, ela foi recebida pela governanta da casa, que a levou até a mansão Misselthwaite, uma construção enorme, escura e antiga, no meio de uma vasta charneca onde nada parecia acontecer. Mary certamente não ficou entusiasmada com a ideia de ser obrigada a ter uma vida naquele campo sem fim, muito menos dentro de uma casa fechada que, ela logo descobriu, guardava mistérios. A mansão possuía cem quartos — todos trancados e proibidos, com exceção do que fora destinado a ela. Seu tio, Archibald Craven, era um homem reservado e misterioso que, a princípio, não queria nem pôr os olhos na sobrinha. Encarregou, portanto, a governanta de tomar conta dela e viajou para longe, fazendo com que o tédio que se seguiu vencesse a barreira de indiferença para com tudo e todos de Mary, o que a fez ter vontade de explorar a mansão e o jardim. 

Esse momento de curiosidade leva Mary a sair de sua concha metafórica e envolver-se com os habitantes da mansão — empregados de seu tio, que cuidavam da manutenção da casa e do jardim. Mas é a partir disso que Mary, além de conhecer pessoas e verdadeiramente se interessar por alguém além de si própria, passa a viver dentro de um típico romance gótico vitoriano. Embora tenha sido publicado no início do século XX, O Jardim Secreto bebe da fonte de romances vitorianos, especialmente dos góticos, reunindo elementos suficientes para que pensemos, a princípio, tratar-se de uma história de assombração ou de tragédia. Entretanto, apesar de haver uma mansão escura, com cem quartos trancados, uma menina órfã que perambula por ela, corredores assustadores repletos de quadros antigos de pessoas estranhas e um som persistente de choro que é veementemente negado por todos os empregados da casa, O Jardim Secreto subverte a narrativa gótica, tornando-se um verdadeiro conto-de-fadas moderno. 

Tal mudança ocorre a partir do momento em que Mary começa a correr livre pelos jardins da propriedade. Não tendo nada para fazer e não querendo ficar presa em seu quarto, ela coloca roupas quentes e sai para desbravar as plantações que são feitas ao redor da casa, assim como a charneca, com seu grande nada — um nada que logo transforma-se em vida. Conversando com uma das empregadas da casa, Martha, uma jovem a quem Mary logo se afeiçoa por ser uma pessoa simples que lhe trata com tranquilidade — coisa que nunca havia acontecido antes —, ela passa a enxergar detalhes a que não prestava atenção. Logo, faz amizade com um pisco, um pequeno pássaro; um dos jardineiros mais velhos da mansão e com o irmão de Martha, Dickon, um menino pouco mais velho que Mary que ama a natureza e é conhecido por ser amigo de todos os animais da charneca. Dickon é um pouco mágico e Mary enxerga nele o chamado da aventura — e o segue. 

Mas, antes disso, ela já havia se aventurado um pouco ao descobrir um segredo terrível e mágico: o jardim secreto. No meio dos jardins da casa, havia um que ficava trancado e que mal podia ser visto, pois a trepadeira que crescera ao redor da demarcação do local tapava qualquer porta ou portão que pudesse indicar por onde entrar. Além disso, logo Mary ficou sabendo o motivo para tal: sua tia, esposa do senhor Craven, amava aquele jardim — um jardim de rosas — e o cuidava diariamente, até que um dia sofreu um acidente no balanço e morreu pela queda. Isso fazia dez anos e, desde então, o senhor Craven havia trancado o jardim e enterrado a chave, de modo que ninguém mais pudesse entrar lá e lembrá-lo de suas dolorosas memórias de felicidade e perda. 

Ao descobrir o jardim, Mary também descobre a vontade de viver e as pequenas alegrias de se cultivar uma flor, uma planta, uma árvore. A natureza lhe faz bem e ela deixa de ser aquela menina enfezada que era para tornar-se alguém mais sensível, atenciosa e vívida. Mexendo na terra e tentando reavivar o jardim, ela faz amizade com Dickon, que lhe ensina os cuidados básicos da jardinagem e trabalha com ela todos os dias naquele pequeno espaço isolado do mundo, repleto de mágica. Logo, ela descobre que o choro que ouvia na mansão vinha de um quarto trancado, onde seu primo — cuja existência ela desconhecia — passava os dias enfurnado, sem nem ao menos receber luz solar, sendo tratado como inválido. O menino hipocondríaco fora criado completamente isolado. Aos dez anos, pouco havia saído do quarto e sua existência era mantida em segredo já que não suportava que outras pessoas lhe olhassem por ter certeza de que possuía uma deformidade física e logo morreria. Mas Mary e ele tornam-se amigos e, assim como ela desenvolveu vida através do jardim, não demora muito para que Colin, seu primo, também saia de seu quarto e trabalhe nas roseiras com ela e Dickon, transformando-se completamente. 

A história é simples e encantadora. É difícil não se perceber querendo entrar no livro para viver aquele mundo de descobertas junto com as três crianças. Ela é, de certa forma, semelhante a A Abadia de Northanger, de Jane Austen, romance que faz troça do gótico ao nos apresentar uma protagonista que tem certeza de que vive um mistério assombrado quando, na realidade, vive uma história de amor comum. Obviamente, O Jardim Secreto não possui uma relação óbvia com A Abadia, já que um é um conto-de-fadas e o outro é uma comédia romântica. Porém, é interessante perceber como ambos começam de forma sombria e terminam de maneira a nos fazer sorrir e desejar viver aquela história. 

No entanto, a maior referência presente em O Jardim Secreto encontra-se na moral vitoriana. Embora seja um livro publicado após a era da Rainha Vitória, é preciso lembrar que épocas marcantes, definidoras de um certo olhar para o mundo, não começam nem terminam de uma hora para outra: seus efeitos podem ser sentidos em momentos de transição, alguns anos antes ou depois delas — e, quando a época possui ditames muito marcantes, estes podem durar até bem mais do que o período normal de extensão de troca de uma era para outra. Burnett, apesar de ter vivido quase toda sua vida nos Estados Unidos, era inglesa e notoriamente gostava de ler o que lá estava sendo produzido e de atualizar-se sobre os costumes educacionais de sua terra natal, assim como sobre as modas e regras para a vida da mulher em sociedade. A época vitoriana foi repleta de regras rígidas e de uma moral que não deixava espaço para dúvidas, especialmente quanto à educação feminina. Mary, assim como acreditava-se alguns anos antes que era o correto, não possuía nenhuma educação formal. Em círculos mais restritos da sociedade britânica do final do século XIX, existia o consenso de que meninas deveriam ser ensinadas dentro de casa e de que o confinamento fortalecia o espírito e as fazia desenvolver as habilidades femininas necessárias em uma dama. Em torno de 1880, criou-se uma forte ideia de que jardins seriam essenciais para tal crescimento pois, embora não estivessem propriamente dentro da casa, eram uma parte aberta, mas de acesso controlado, onde a criança ou jovem poderia aproveitar a natureza sem os perigos de más influências e, ainda, aprender desde cedo o que faria ao longo da vida: a arte de ser inútil e bonita. 

É absurdo pensar que isso um dia foi real, porém existem diversos artigos de jornais da época e livros que corroboram tal noção misógina de educação para mulheres. Mais revoltante ainda é pensar que isso, na verdade, tratava-se de um grande progresso educacional na época: poucos anos antes, até meados de 1870, a jardinagem não era considerada feminina, já que envolvia mexer na terra e sujar-se, além de lidar diretamente com plantas, o que era considerada uma atividade masculina e, até mesmo, viril. Mulheres da alta sociedade discutiram muito e criaram argumentos para que a educação ao ar livre para todas as crianças fosse aceita e implementada. O Jardim Secreto, embora tenha sido publicado quando tal noção já estava bem assentada na sociedade, é também um livro que discursa sobre a importância de meninas descobrirem o mundo e a si mesmas através de uma educação que envolva exercícios ao ar livre e o cultivo de plantas. Mas, ao contrário do que mandava a etiqueta, Burnett não faz Mary criar gosto pela jardinagem para que ela se tornasse inútil e bonita. Ainda que ela, de fato, fique mais bonita pelo exercício e pelo contato com a natureza, Mary é ativa e curiosa, enfrentando quem quer que seja de forma altiva e querendo produzir algo, não ser apenas mais um enfeite familiar. Há algo de libertador e transgressor na forma como Burnett aplica a forma educacional vitoriana em uma personagem rebelde que não tem seu espírito aplacado pela atividade; pelo contrário, torna-se cada vez mais forte e destemida, pronta para tudo já que agora sente que o mundo não é mais um espaço tão hostil. 

Como trata-se de um clássico, escrito há mais de um século, há passagens em que nos deparamos com coisas inaceitáveis para nós, leitores do século XXI. O racismo é uma delas. Mary foi criada na Índia e sua noção dos indianos é revoltante. Ela ativamente os destrata por sua cor de pele e fica horrorizada quando Martha, a criada de seu tio, fala bem deles, sentindo-se ofendida por pensar que poderia ser confundida com uma criança de “pele escura”. Momentos assim nos fazem sentir aversão à leitura, mas felizmente eles não duram muito: conforme Mary descobre o mundo e outras pessoas, ela desconstrói essas noções de superioridade. Mas é indigesto ler tais passagens, de qualquer forma. Também existe uma sub-narrativa sobre pobreza versus riqueza. A família de Martha e Dickon é muito pobre. Com catorze filhos, a mãe deles precisa se virar da forma como pode, muitas vezes passando necessidade. Porém, ela é uma figura central para a recuperação de Mary, já que é generosa e tira de onde não tem para lhe dar uma corda de pular e a atenção e cuidado que a menina nunca havia recebido. Por mais bonito que isso possa parecer, é problemático fazer tal ligação sobre a “pobre menina rica” que tem de tudo, menos o amor familiar. A romantização da pobreza é um ponto sensível no livro — e, para ser sincera, é facilmente encontrado na maioria dos clássicos de língua inglesa da época. 

No entanto, esses pontos não atrapalham a leitura, apenas nos levam a refletir sobre como a sociedade já foi pior. Hoje em dia, existem muitas coisas erradas e a luta pela igualdade social continua em todas as esferas. Mas é possível rebater afirmações racistas ou que romantizam a pobreza, coisa que na época não era, ao menos não de forma tão fácil ou aberta. A autora certamente pensou que estava fazendo o correto ao inserir tais elementos na narrativa. Ler clássicos é sempre fazer um recorte da época, apontando os erros, é claro, mas compreendendo que cada época possui seus males e suas mentalidades errôneas e certamente os leitores do futuro olharão para nossos escritos e encontrarão muitas coisas ofensivas e ultrajantes. Se O Jardim Secreto fosse um livro atual, a autora se encontraria em maus lençóis por tal coisa, mas não adianta cancelar uma mulher morta há um século, só podemos criticar os erros para não repeti-los ou fazer uma análise da sociedade daquele período a partir deles — e tentar compreender o livro pelo que ele foi escrito para ser: um conto-de-fadas moderno cuja mensagem é até bem progressista para a época. 

Ainda que seja um clichê, cultivar um jardim é também cultivar a si mesmo. A natureza, de fato, nos ajuda a perceber o mundo de uma forma mais bonita, mais mágica, mais rica. “Eu tenho certeza de que existe mágica em tudo e que nós é que não sabemos tirar proveito dela.” Eu também.


Se interessou pelo livro? Você pode encontrá-lo aqui.


Texto originalmente publicado no Valkirias

2 Comentários

  1. Eu adoro essa história, esse livro e sua adaptação cinematográfica. Gostei muito da sua resenha/análise, achei interessante que você trouxe pontos que eu geralmente não observo em outras resenhas e comentários sobre o livro (como as referências à época vitoriana).

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    1. Oi, Isadora!
      Fico feliz que você tenha gostado :) Sou fascinada pela era vitoriana e esse livro possui tantas referências a ela que foi quase impossível não falar sobre haha

      Bjo!

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