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Sua série favorita é gordofóbica?

Todos os dias eu abro o Twitter e me deparo com a mesma cena: em meio a conversas aleatórias, reclamações sobre como a vida é difícil e a bolha dos livros falando sobre suas leituras do momento, tem sempre alguém enaltecendo alguma série como sendo perfeita. Eu amo séries. Mais do que filmes, até. Um dos meus passatempos preferidos é assistir a temporadas de uma história, me apegando durante anos a personagens fictícios que desenvolvem-se em um ritmo bem mais lento e, muitas vezes, melhor, do que num filme. No entanto, é preciso dizer: sua série favorita é gordofóbica. 

Essa é uma afirmação genérica e tenho plena ciência disso, mas ela ainda é válida. A cada poucos meses, é lançada uma nova série nos serviços de streaming que logo é elencada ao patamar de “perfeita”, “sem defeitos”, “representativa”, “veio para salvar a comédia”. Como adoro séries, costumo dar uma chance a elas e, infelizmente, a decepção é quase sempre a mesma: ainda que tenham seus bons momentos e elencos realmente diversos, com personagens LGBT+ e não-brancos, parece quase irresistível para os roteiristas inserir alguma piada cujo alvo cruel é uma pessoa gorda e seu descontrole alimentar. 

Embora celebre o quanto a televisão tem avançado em pautas importantes como a representação de minorias com personagens relevantes e bem construídos, não posso deixar de me indignar com a ovação feita a tais produções na internet. Sem defeitos? Perfeita? Muito pelo contrário. Enquanto uma narrativa utilizar de piadas sobre o corpo alheio, ela jamais será digna de tais elogios. 

Mas as pessoas não parecem pensar assim. Ainda que a gordofobia seja escancarada em produções altamente elogiadas, para o grande público isso não importa: gordo nem é gente - é o que parece ser o raciocínio deles. Talvez não seja algo consciente, mas é real. Ainda que a luta para que minorias sejam tratadas com respeito seja árdua e válida, ela carece de um ponto fundamental: a inclusão de pessoas gordas. O tamanho de manequim não torna alguém engraçado ou mesmo significa que essa pessoa possui problemas alimentares. Existem muitas razões para ser alguém gordo, incluindo questões genéticas. Comida é uma resposta simples e burra nesse caso. Porém, ninguém parece se importar com a veracidade por trás dos clichês ridículos inseridos nas narrativas - desde que um personagem de destaque seja LGBT+ e não-branco, pode-se tolerar tudo, afinal, olha que lindo o corpo escultural tamanho 36 dele. 

Exemplos existem aos montes. Os policiais politicamente corretos de Brooklyn Nine-Nine lutam contra a injustiça e são compreensivos e empáticos com os problemas de cada um. Muitos são não-brancos - e não caem em clichês por isso, piadas simplesmente não seriam toleradas com eles por sua cor de pele, e nem deveriam ser. Alguns não são héteros e o bullying simplesmente não é permitido. Quem se atreveria a intimidar Rosa Diaz ou Capitão Holt por isso? Quem não acha inspiradora a história deles e torce para que eles jamais se deparem com pessoas ignorantes e preconceituosas que lhes ferem por seus julgamentos grotescos? Mas a mesma cortesia não é aplicada a Scully e Hitchcock, dois detetives gordos. Existem episódios inteiros dedicados a fazer piadas com eles a respeito de seu relacionamento com a comida. Um deles até vai mais longe e mostra que ambos tornaram-se preguiçosos, abandonando a forma sarada e invejada ao descobrirem um restaurante cuja comida era irresistível a eles. Que tipo de humor é esse que se diz politizado e do bem, abraçando as minorias, mas que não resiste a desumanizar o corpo gordo? O tipo de humor que precisa tornar-se inaceitável. 

Eu Nunca…, série adolescente da Netflix, é outro exemplo de gordofobia inserida numa narrativa que se vende como livre de preconceitos e amiga das minorias. Sim, a protagonista é uma menina indiana, nenhuma de suas amigas é branca, os clichês aplicados a não-brancos não existem ali e uma delas é lésbica, o que é realmente excelente. A série possui uma história ótima, sensível, com personagens que vão além do óbvio e retratam a pluralidade… mas é gordofóbica. Em diversos momentos dos dez episódios da primeira temporada, são inseridas piadas com um menino gordo, colega da protagonista. O menino nem precisa de nome: ele é simplesmente um corpo gordo que, como todos os corpos gordos, não possui limites ao se tratar de comida e parte em busca até mesmo de sobras, numa cena particularmente constrangedora e errada. Mas, ao entrar no Twitter, vejo pelo menos dez pessoas dizendo que a série é perfeita, que finalmente a Netflix acertou ao produzir algo que respeita e celebra as minorias. Mas quais minorias, me pergunto. Somente aquelas que, derrubados os preconceitos étnicos e de orientação sexual, se adequem ao padrão manequim 36. Quando um gordo aparece, é para ser um alívio cômico de alguma cena séria. Até quando isso será assim? 

Sempre celebrarei produções que apoiam minorias e se esforçam para fazer algo novo e real. Ver personagens não-brancos em destaque é excelente, ainda mais se forem LGBT+. Esse certamente é um passo importante para a igualdade dentro da televisão (e do cinema). Mas ele não é o único. E passar pano para séries gordofóbicas porque elas possuem uma pessoa negra ou lésbica como protagonista é algo que não estou disposta a fazer. Eu ria muito com Brooklyn Nine-Nine, até me dar conta de que estava rindo das piadas que as pessoas fazem comigo. Isso é cruel, é errado, é desumano. Sua série favorita pode ser divertida, mas ela é gordofóbica - e nada justifica rir de uma pessoa gorda. 

~como eu me sinto após ter de explicar mais uma vez que sua piada gordofóbica não é engraçada~

2 Comentários

  1. Mia, seu texto é pra lá de necessário e correto! Quando assisti "Eu Nunca...", a cena que eu mais ODIEI foi aquela em que o personagem gordo pergunta pra prima da protagonista se ela quer sair com ele, "que é o atleta da escola". QUAL A NECESSIDADE DE COLOCAR ISSO? Aliás, absolutamente todas as cenas dele são piadas bem infantis e deploráveis.

    Limonada

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  2. eu amo B99 e não havia parado pra pensar nisso, mia. obrigada pela reflexão ♥
    eu vi 'eu nunca...' e me incomodei bastante. acho tão cafona criadores de série que ainda insistem na personagem gorda e atrapalhada da escola. tipo, 2020 galeraaaaa!
    acho que essas séries mais recentes da netflix tem levantado questionamentos interessantes e necessários, inclusive criando personagens que fogem dos padrões vistos em séries até então. mas acho que a discussão ainda é bastante rasa. em muitas delas, dá pra perceber que partem do ponto de vista branco/hetero. não adianta fazer a melhor amiga da personagem principal ser uma mina negra LGBT. isso não é suficiente.

    beijos! :)

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