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Uma história ocasionalmente verdadeira sobre Catarina, a Grande

O noivado de Catarina, a Grande durou quase dois anos. Seu futuro marido, Pedro de Holsácia-Gottorp (posteriormente conhecido como Pedro III), era filho da irmã da Imperatriz Elizabeth, e neto de Pedro, o Grande, não seu filho. Foi seu avô quem ordenou a todos os homens o corte das barbas, assim como a mudança de vestimentas, para europeizar e modificar a visão que o resto do continente tinha da Rússia, não Pedro III, que não passava de um governante desinteressado, quando muito. Esses são apenas alguns dos erros mostrados nos dois primeiros episódios de The Great, série humorística do Hulu, que retrata a vida da jovem Catarina e sua busca por grandeza e poder na Rússia Imperial. No entanto, ao mergulharmos em uma narrativa repleta de escândalos e de uma visão que mais se relaciona com o senso comum sobre a vida das mulheres nas cortes europeias do que com a veracidade histórica, é preciso fechar os olhos para as grandes mudanças de fatos para apreciar a série, que é divertida e possui o espírito de Catarina, ainda que não sua história real. 


Assistir The Great esperando por algo próximo de uma biografia da jovem Catarina, que raramente aparece nas telas, é um erro. O que encontramos na série é uma bela sucessão de distorções da verdade, a começar pela linha sucessória e os parentescos. Mas não digo isso para desestimular qualquer espectador incauto; pelo contrário: a série é divertida e, após ter lido as Memoirs escritas pela própria Catarina, acredito que ela teria aprovado as liberdades do roteiro — embora fosse provável que exigisse uma versão verídica e fiel às suas memórias, feita para ontem. 

Catarina, a Grande, foi muitas coisas. Infelizmente, as pessoas que contam sua história, seja por meios audiovisuais, seja através da escrita, costumam fazê-lo focando nas partes polêmicas do que a Imperatriz e Autocrata de Todas as Rússias viveu, especialmente no lado sexual. Todos conhecem a fama de Catarina e a infame história do cavalo, mas poucos realmente dedicam-se a ver que, por trás de toda a misoginia que cerca sua figura, existe uma mulher extremamente inteligente, culta, autodidata, estadista, preocupada com questões educacionais e que conquistou seu povo e deu o golpe em seu marido, o fraco Pedro III, por ser verdadeiramente amada por todos e utilizar de inteligência, cultivando boas relações durante anos, não por força ou medo. 

The Great, apesar de seus muitos e constantes erros históricos, consegue capturar bem isso. O amor de Catarina pelos livros está presente, assim como seu sofrimento ao conviver com um marido que reinava como uma criança birrenta e não via utilidade alguma na educação. Para além disso, também mostra como Catarina realmente era espirituosa, divertida e animada, ainda que à sua própria maneira e, muitas vezes, de forma quase desesperada, numa intenção de sobreviver. A série não se preocupa com quase nada no que tange à historicidade, mas acerta no caráter de seus personagens. 

Existe uma diferença entre um erro histórico cometido por falta de atenção, ou pelo simples desprezo às narrativas fidedignas, e um equívoco bem costurado, feito de propósito por alguém que conhece suficientemente bem a estrutura verdadeira do que de fato aconteceu para modificar aquilo que achar pertinente, sem alterar o cerne da obra ou manchar uma memória. The Great enquadra-se no segundo caso. Em cada cena, apesar de toda a multidão de coisas fora do lugar, é possível ver a extensão do conhecimento de seu criador, que verdadeiramente não somente conhece a biografia de Catarina, a ponto de alterar praticamente tudo e ainda captar perfeitamente sua personalidade, como também brinca com a história da Rússia, mesclando fatos, leis e até mesmo alguns personagens de séculos anteriores e posteriores, colocando-os lado a lado, como atores num palco que serve para embelezar (ou servir de comparação inferior) a jovem Catarina, antes de ser conhecida pela alcunha “a Grande”.  

Criada e roteirizada por Tony McNamara (que também roteirizou A Favorita, ao lado de Deborah Dean Davis, e, aqui, divide os créditos de roteiro com outras cinco pessoas: Vanessa Alexander, Gretel Vella, Tess Morris, Amelia Roper e James Wood), The Great dividiu opiniões. Seus dez episódios mostram a chegada de Catherine (Elle Fanning) na corte de Peter (Nicholas Hoult), e a maneira gradual com que vai “perdendo suas ilusões, somente para ganhar outras” (citando Orlando, da sempre maravilhosa Virginia Woolf). A chegada já implica no casamento, que acontece no primeiro episódio, sem que um noivado seja realizado. A Catherine que chega à corte russa é uma jovem completamente inocente e ingênua. Suas roupas são simples e claras, em tons pastel; seu cabelo cai num semi-rabo-de-cavalo, sem adereços; ela apresenta-se a Peter dando-lhe de presente um ramo de abeto, para simbolizar o relacionamento de ambos, que ela espera que cresça e torne-se tão forte e bonito quanto. Mas logo percebe que Peter não faz ideia do que ela está falando quando ele, insensivelmente, pergunta aos homens mais próximos da corte se ela é “retardada”, num uso tanto ofensivo de modo pessoal a ela quanto de modo geral para todos nós, que sabemos o quão errado é esse termo. Mas essa é a ideia da série, que nos faz sentir aversão por Peter logo de cara. Entretanto, Catherine ainda tenta amar seu futuro marido e Imperador. Decidida a conquistá-lo, ela rejeita a tentativa de aconselhamento de Marial (Phoebe Fox), sua criada pessoal, e agarra-se à sua visão ultra romântica da noite de núpcias e do futuro relacionamento em si — visão essa que logo se desfaz quando um Peter bêbado, e mais preocupado com patos do que com a recém-esposa, tem a primeira vez com ela enquanto conversa com Grigor (Gwilym Lee), seu amigo, que está na porta, esperando ele terminar a tarefa, para que possam continuar as festividades da noite. 


Não demora para que Catherine se dê conta de onde está pisando e, ao final do primeiro episódio, ela já bateu na cara de Peter, em público, após ele ter matado seu urso de estimação; já apanhou dele de volta; já teve seu projeto de uma escola para mulheres incendiado, por ordens do Imperador e, para finalizar, tentou o suicídio, não suportando a ideia de uma vida ali. É Marial quem, descobrindo-a a ponto de cortar-se, lhe avisa sobre a lei de sucessão russa da época, que não era, necessariamente, consanguínea, mas por ordem de proximidade. Se o Imperador morresse sem um herdeiro, o trono seria da Imperatriz. Sendo assim, se Peter morresse, Catherine ascenderia ao trono. Isso a deixa pensativa e faz com que seus planos suicidas sejam adiados — ou, melhor dizendo, transformados em homicidas. 

“— Desde que era criança, sentia que a grandeza estava reservada para mim. Uma grande vida, eu sentia. Como se o próprio Deus tivesse me cuspido para pousar nesta Terra e, de alguma maneira, transformá-la. Como se eu estivesse aqui por uma razão, um propósito.
— Por que ele te fez mulher, então?
— Por diversão, eu acho.”

Decidida a matar Peter e tomar o trono, Catherine começa sua peregrinação pela corte em busca de aliados. O primeiro, além de Marial, é o Conde Orlo (Sacha Dhawan), o que é muito interessante, pois foi Conde Orlov quem, na vida real, ajudou Catarina a dar o golpe de Estado que destronou seu marido. Mas o Conde Orlo da série difere em muito do Orlov histórico, a começar pelo fato de ele e Catherine não possuírem nada para além de uma amizade e afinidade intelectual. Orlo, assim como ela, ama a literatura e o estudo, e quer que a Rússia transforme-se numa potência artística e livre. Já o Orlov histórico era seu amante, com quem a Imperatriz teve dois filhos. Como forma de subverter a história, o Orlo da série é amplamente conhecido na corte por não relacionar-se sexualmente com ninguém. Seu amor é pelos livros, ele é um estudioso, ponto final. Mas, numa corte que mais parece um bacanal, isso é motivo de zombaria — o que só faz inflamar-lhe o ódio e dar-lhe motivos para alinhar-se a Catherine. 

Logo, Catherine parte em busca de novos aliados e, contando com Marial, Orlov, General Velementov (Douglas Hodge) e Leo Voronsky (Sebastian de Souza), seu amante real, ela arquiteta o assassino de Peter e a tomada do trono. Mas, durante os seis meses que a série mostra em seus dez episódios, Catherine percebe que não será tão fácil assim tornar-se autocrata. Para tanto, não basta assassinar Peter: ela precisa tornar-se russa.

Qualquer um que conheça um pouco sobre a vida da verdadeira Catarina sabe que ela foi rápida em aprender a língua russa, assim como a cultura e tudo o que envolvia o processo de tornar-se russa. Ao contrário de Pedro, que chegou à Rússia por ordens de sua tia, a Imperatriz Elizabeth, quando já era adolescente, e jamais interessou-se por aquele país e seus costumes, Catarina jogou o jogo político desde seus primeiros passos em São Petersburgo, não dando chance para que as pessoas a olhassem e enxergassem nela somente uma princesinha alemã. A série brinca com isso algumas vezes, especialmente com o tratamento que as damas da corte dão a Catherine. Com desprezo, arrogância e crueldade, elas deixam bem claro que, embora Imperatriz, ela não passa de uma princesa alemã (na verdade, da Prússia) que nunca será vista como russa, tampouco aceita naquele meio. 


É muito provável que aqueles que procuram uma série historicamente correta sobre a vida dessa, que foi a mais longeva governante da Rússia, sinta-se decepcionado. É possível que até mesmo alguém sinta-se ultrajado pelo nível quase escrachado de humor. The Great é inacurada e tem orgulho disso. De certa forma, não é muito diferente do que acontece com Hamilton, o musical, ou mesmo o filme co-roteirizado por McNamara, A Favorita. Dificilmente uma ficção histórica se aterá aos fatos, mas a maioria, ao menos, tenta. Esse não é o caso aqui. No entanto, a série é perfeita no que se propõe.

Em entrevista, McNamara afirmou que: “Eu estou interessado em como você muda algo para torná-lo mais contemporâneo e para falar com uma audiência agora, e para ter mais diversão. […] Sempre penso que eles eram exatamente como nós, exceto que tinham carruagens e casas gigantescas, palácios e outras coisas. Você se levanta e está infeliz com seu amigo ou com o seu casamento, e como você vai lidar com isso? São todas essas coisas básicas pelas quais todo mundo passa, e tenho certeza de que eles passaram por isso da mesma maneira, exceto que, ao invés de dirigirem até uma cafeteria, eles levavam uma carruagem até o gramado ou algo do tipo”. A ideia, desde o início, quando a série era uma peça de teatro e seu desenvolvimento estava sendo pensado para os cinemas, era mostrar uma corte russa mais próxima à nossa realidade do que se vê em produções mais “sérias”. A visão de uma jovem Catarina, a Nada, tornando-se a Catarina, a Grande, que conhecemos, não é muito diferente de Mean Girls, quando Cady (Lindsay Lohan) chega a uma nova escola, comandada por meninas malvadas e cruéis, sob e efígie de Regina George (Rachel McAdams). Logo, Cady passa a jogar o jogo da crueldade glamourosa para sobreviver lá dentro. Se você nunca pensou em Catarina, a Grande e Regina George na mesma frase, é hora de assistir a The Great

Por vezes, tem-se a impressão de que The Great pretende reescrever a história, mas logo ela volta ao passo das memórias de Catarina, a Grande, não nos deixando desviar muito daquilo que, de fato, aconteceu. Todavia, as liberdades históricas são tantas que alguém que nunca teve contato com nada sobre a Rússia do século XVIII verdadeiramente achará que a corte era um bacanal e que Pedro III era apenas um garoto mal-amado, que poderia ser salvo pelo poder do amor. Não era o caso. O verdadeiro Pedro realmente tinha problemas de autoestima, que só fizeram piorar após ele ficar de cama por conta da varíola, que lhe deformou o rosto. É dito na biografia da Imperatriz (Catarina, a Grande: Retrato de uma mulher, por Robert K. Massie) que Peter esperava ao menos um gesto de afeição da noiva quando retornou da quarentena, mas Catarina ficou completamente chocada com a visão do futuro Imperador, que lhe pareceu monstruoso. Pedro já não era muito bonito para a época, segundo descrições; ele era quase infantil, tanto fisicamente quanto psicologicamente, seu corpo não havia se desenvolvido para além da constituição frágil de um pré-adolescente, e ele passava os dias com soldadinhos de brinquedo, completamente alheio às suas responsabilidades. Já não era, portanto, um rapaz atraente para uma Catarina que a cada dia tornava-se mais quem um dia seria. Mas eles tinham uma boa amizade. Em certa medida, Catarina era a confidente de Pedro, a única pessoa em quem ele sentia poder confiar sem grandes julgamentos. Mas sua reação perante a deformidade causada pela varíola fechou seu coração para ela, que, a partir daquele momento, passou a ser mais uma obrigação do que alguém de quem ele queria ficar perto. 

Não é o que vemos na série. The Great apresenta um Peter bonitão, interpretado por Nicholas Hoult, que possui uma beleza padrão. Alto, com belos olhos azuis e lindíssimo em roupas daquela época, Hoult dá rosto a um Peter que é tão detestável quanto sensível. É difícil não gostar dele, para falar a verdade. Parte disso vem da brilhante interpretação do ator, que lhe confere trejeitos diversos, em micro expressões que expressam dúvida, medo e vontade de viver. Peter é irresponsável, não se importa com a vida alheia e deseja viver em uma grande festa. Todos à sua volta acabam sendo a representação humana de risos nervosos, pois o Imperador praticamente os obriga a rirem de suas piadas, que mais causam medo do que graça. Mas, ao mesmo tempo, ele consegue ser tocante ao falar do quão inferior sente-se por ser filho de Pedro, o Grande, temido e amado na mesma medida por seu povo (um erro proposital da série, que não quis envolver-se na complicada linha sucessória e de parentesco que levou Pedro III ao trono, preferindo adotar uma alternativa equivocada, porém que rende situações cômicas aos episódios). Sua devoção a Grigor, seu amigo mais próximo, é comovente, assim como torna-se quase impossível não torcer um pouco por ele quando ele passa a conhecer Catherine e a amá-la, deixando de ser tão obtuso e esforçando-se para agradá-la e ser mais gentil com seu povo e com ela. No entanto, nada disso apaga o fato de que ele é o mesmo homem que obrigou dezenas de pessoas a arrancarem os olhos de cabeças decepadas de soldados suecos durante um jantar, ou que ordenou a tortura de todos da corte, inclusive dos amigos, quando desconfiou de que alguém lhe tramava um golpe. O Peter da série assemelha-se ao verdadeiro por sua volatilidade, burrice e teimosia, mas possui contornos complexos que lhe tornam um personagem talvez mais incrível do que o original. Ele é capaz de fazer com que seu bordão, o grito de interjeição “Huzzah!”, possua muitos significados — e isso não pode ser dito sobre qualquer interpretação. 


É comum que as séries históricas produzidas atualmente tenham toques de pautas importantes para a nossa sociedade no roteiro, com grandes cutucões em coisas como machismo e preconceitos. Mas, geralmente, isso é feito de forma grosseira, de modo que parece como se tais temas tivessem sido inseridos à força na narrativa. Isso não acontece em The Great. A série poderia facilmente ter descambado para algo forçado, especialmente porque ela bate na tecla da importância do feminismo a todo momento, mas isso não ocorre justamente por causa do grau de conhecimento histórico das pessoas por trás dela. É muito claro que elas conhecem a história de Catarina, a Grande, assim como a realidade russa dos séculos XVII e XVIII. Embora não seja correto falarmos de feminismo quando nos referimos a Catarina, por um lado porque o conceito, como o compreendemos, só surgiu bem depois e, por outro, porque ela pode ter tido suas conquistas importantes e uma agenda em benefício das mulheres, mas ela ainda era uma autocrata suficientemente firme e ambiciosa a ponto de não deixar nada em seu caminho, nem mesmo a necessária ajuda às mulheres russas, ainda assim, Catarina importava-se com sua condição de mulher e queria fazer da Rússia um país progressista. Foi ela quem criou a primeira escola para mulheres do país, permitindo que elas fossem educadas. Ela incentivava a leitura dos grandes teóricos da época, como René Descartes e Voltaire (que faz uma ponta na série, interpretado por Dustin Demri-Burns, por sinal). Claro, Catarina demorou anos para implementar suas ideias numa Rússia que só não era totalmente rural quando ela lá chegou porque Pedro, o Grande, avô de seu marido, a havia europeizado. Entretanto, a Catherine da série possui toda a personalidade contestadora e ambiciosa da real, o que é mostrado a cada fala — sem forçar nada. 

Não há uma união feminina na série, até porque Catherine é apenas uma estrangeira, com ideias estranhas, que chegou à corte recentemente, tratando todas as damas de forma arrogante ao desprezar seus interesses por chapéus, moda e flertes como sendo menores, comparados aos estudos filosóficos e políticos dela. Ela possui apenas uma amiga, Marial, a criada que um dia fora Lady, até seu pai violar o cadáver da mãe de Peter (numa cena que só não é mais chocante porque a série já havia mostrado o arrancar de olhos das cabeças de cadáveres, e pouca coisa consegue superar isso). Marial torna-se sua confidente e, seja por interesse próprio, afinal, ela deseja retomar sua posição como dama na corte, ao invés de servir, seja por afeto e admiração pela Imperatriz, o vínculo é mantido até quase o final, quando Marial deixa Catherine numa posição difícil em nome de proteção política. Mas, até aquele momento, são delas as falas mais afiadas da temporada, tornando quase impossível não amá-la, embora ninguém ali preste (talvez possa ser aberta uma exceção a Orlo, que é completamente perdido naquela bagunça de gente traiçoeira e ambiciosa).

“— Como foi sua manhã?
—  Evitei um estupro. E você?
—  Também.
—  Se algum dia alguém inventar algo mais fácil do que botões, todas nós teremos problemas.” 


No sétimo episódio, “A Pox on Hope”, o mais triste da temporada, vemos um embate entre ciência e religião que poderia facilmente ter saído de uma série ambientada nos dias atuais. O Patriarca da Igreja Ortodoxa, Archie (Adam Godley), discute fervorosamente com Catherine, acusando-a de ser um mal encarnado na corte, tudo porque ela, além de tentar colocar obras de arte e ciência lá dentro, defende o uso da variolização, espécie primitiva de vacina contra a varíola, durante um surto epidêmico que se dá entre os servos e fora dos portões do palácio. Archie, como representante da igreja, afirma que isso é simplesmente fora dos desígnios divinos, e Peter, como o idiota que é, simplesmente dá a ordem para que os servos infectados sejam queimados, longe da corte, para que a epidemia não se alastre entre os nobres. Catherine fica completamente em choque com tal atitude e determina-se, mais do que nunca, a salvar a Rússia da ignorância. Afinal, ela considerava-se uma iluminista, e a série deixa isso bem claro. 

The Great dialoga com os tempos atuais ao mostrar o desespero de uma mulher, e de uma corte, que se vê sob os caprichos de um governante autoritário e burro, mas cruel, que abusa do poder para fazer piadas que mais aterrorizam as pessoas à sua volta do que divertem. O sentimento de ser refém do homem que deveria cuidar do país é o que impele Catherine a recompor-se e traçar um plano para obter a coroa. E é também esse sentimento, toda essa insegurança e o medo real que as pessoas sentem de Peter, que os leva a enxergarem em Catherine uma solução para aquela tortura — metafórica e literal. Seu discurso, ao final do nono episódio, “Love Hurts”, é sincero e emocionante. Após terem sido cruelmente torturados a mando de Peter, todos da corte, com unhas arrancadas, ferimentos pelo corpo todo, cicatrizes doloridas de enguias no rosto e emocionalmente feridos, se dão conta de que, se quiserem sobreviver com dignidade, terão de parar de responder aos “Huzzahs!” de Peter e começar a dar atenção àquela que está ao seu lado. Ela pode não ter nascido na Rússia, mas não possui desejo algum de torturar as pessoas por paranoia ou diversão. 

A cada final de episódio, a música escolhida para os créditos passa uma mensagem diferente, de acordo com a história e as mudanças interiores de Catherine. No primeiro episódio, temos “Everybody Wants to Rule the World“, de Patti Smith, sendo tocada logo após Catherine decidir que será a futura Imperatriz da Rússia. Nunca essa música foi tão bem usada numa série. E, ao final do doloroso nono e penúltimo episódio da temporada, a música que toca no final é “New World Coming“, de Cass Elliot, uma música que deixa claro os rumos da série: “Há um novo mundo chegando, e é ao virar da curva. Há um novo mundo chegando, este está chegando ao fim”. O novo mundo está chegando pois, no episódio seguinte, é o aniversário de Catherine — e o dia do golpe. 


Ao descobrir-se grávida, Catherine decide agir de uma vez por todas. Aproveitando-se dos sentimentos que Peter têm por ela, tendo ele declarado seu amor após o sucesso da Imperatriz ao reconciliar a Rússia e a Suécia, dando fim à guerra (no oitavo episódio, “Meatballs at the Dacha”), Catherine aproxima-se dele com uma faca escondida na armação do vestido. Suas roupas, antes soltas e quase sem cor, agora são justas ao corpo e em tons vibrantes, mostrando determinação e vontade de ser vista. Mas, ao tentar conquistar o trono através do assassinato, ela falha duas vezes: na primeira, porque o presente de Peter foi a chegada de Voltaire à corte, o que a distrai por um bom tempo em uma conversa filosófica com um embriagado e atrevido acadêmico. Sua segunda falha consiste em algo simples: ela nunca matou alguém. Quando finalmente ficam sozinhos, ela avança contra Peter, determinada a cravar-lhe a faca no coração, mas ele, acostumado a lutar, desvencilha-se dela facilmente e, num arroubo arrogante semelhante ao que Mr. Collins, de Orgulho e Preconceito, exibe ao ser rejeitado por Elizabeth Bennet, o Imperador afirma que seu pai lhe ensinou que, quando uma mulher quer lhe matar, é porque você está dentro.

Claro que o golpe não daria certo, seria muito cedo para isso. A verdadeira Catarina tinha 33 anos quando assumiu o trono, e já era casada há 15 com Pedro III, com quem tinha dois filhos, em 1761. Acredito que, ainda que a série não tenha compromisso com a veracidade histórica, eles não tomarão esse caminho dessa forma, primeiro porque todos os anos que demoram para que Catarina chegue ao poder apenas lhe rendem histórias sensacionais que podem ser melhor exploradas em temporadas futuras e, em segundo lugar, porque a dinâmica entre Catherine e Peter é maravilhosa e desperdiçá-la com somente uma temporada seria burrice. Mas a season finale possui um ritmo apreensivo e imprevisível. Enquanto Catherine tenta tomar a coroa, Velementov derruba os apoiadores de Peter, preparando o terreno para a Imperatriz. O final, em aberto, nos deixa esperando por mais. Talvez uma pista do que ocorrerá na segunda temporada (já confirmada) possa ser encontrada na música utilizada nos créditos finais. “Bird on a Wire”, de Leonard Cohen, interpretada por Simone Istwa especialmente para a trilha sonora de The Great, que fala sobre estar em uma situação da qual a pessoa tentou libertar-se, mas não conseguiu, e agora só pode esperar que o outro lhe conceda um olhar misericordioso.

Sabemos como termina a história de Catarina, mas não conhecemos a trajetória que McNamara preparou para a nossa Catherine. “Ela era uma jovem que foi para um país estrangeiro e acabou no comando dele. Ela se casou com um idiota e acabou dominando aquele país. Eu pensei que ela era uma mulher e personagem incrível e fiquei muito interessado em escrever sobre isso”, disse o diretor e roteirista. Ele também disse que a ideia de transformar sua versão de Catarina em uma série lhe pareceu muito melhor do que a ideia de levá-la às salas de cinema, pois assim ele poderá desenvolver a história por anos, contando, à sua maneira, todos os fatos importantes que envolvem a vida dessa grande mulher. Inclusive, pelo que sabemos, The Great foi pensada para ter seis temporadas. Ainda veremos muito mais de Catherine, Peter, Marial e Orlo, felizmente. E, depois de uma temporada sensacional, já espero ansiosamente pela próxima. Huzzah! 


Este texto foi originalmente publicado no Valkirias

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