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Such a fun age: um romance sobre racismo

Uma das coisas que mais gosto no meu cotidiano é a possibilidade de encontrar livros novos de que realmente gosto. Por vezes, tenho de ler livros que estão longe de ser histórias que realmente me farão apreciar a leitura, mas, às vezes, aparecem livros tão maravilhosos que me fazem querer ler tudo o que a autora escreveu. Um deles é Such a Fun Age, da Kiley Reid.


Such a Fun Age é um desses livros que, passado os primeiros capítulos, você tem dificuldade para largar. Com uma história envolvente e, por vezes, misteriosa, é bem fácil para o leitor não perceber as horas passadas durante a leitura. De certa forma, é como se a trama de Get Out, filme de terror de Jordan Peele, tivesse sido adaptada para a realidade nada fantástica, mas ainda assim assustadora, da vida de uma jovem negra na Nova York de 2015. Embora esteja longe de ser uma obra de terror e, na verdade, possua um tom bem leve e divertido, é sempre assustador pensar no quão difícil pode ser a vida de uma pessoa negra que está tentando apenas fazer seu trabalho já que a nossa sociedade é racista e, aqueles que não o são de forma direta o são de maneira a sentirem-se heróis por fazerem o mínimo, a ponto de causar verdadeiro dano nas pessoas.

Such a fun age
Kiley Reid
307 páginas
G.P. Putnam's Sons
Ano de publicação: 2019

No meio de uma crise familiar, tarde da noite, a blogueira branca Alix Chamberlain liga para sua babá afro-americana, Emira, pedindo-lhe que leve Briar ao mercado local para se distrair. Lá, o segurança acusa Emira de sequestrar Briar, e os esforços de Alix para corrigir a situação acabam sendo boas intenções egoisticamente mal-administradas.

A partir daí, somos levados ao mal que pessoas brancas, supostamente bem-intencionadas, podem causar a pessoas negras por intrometerem-se em suas vidas e não admitirem seu racismo.

Demorei cerca de uma semana para finalizar a leitura, mas teria demorado menos do que isso se não tivesse outros compromissos no momento. O livro é realmente envolvente e é fácil se apegar às personagens, torcendo por elas, pensando no que elas farão... Se trata de uma história muito bem escrita. Embora haja diversas passagens onde o sotaque das personagens (ou maneirismos de linguagem) são descritos de maneira fonética, o que pode atrapalhar um pouco a compreensão da narrativa (o que certamente não será um problema na edição traduzida), a história flui perfeitamente bem e os acontecimentos são encadeados de forma a tudo fazer sentido, especialmente na construção psicológica dos personagens.

Emira trabalha como babá para Alix, uma mulher na faixa dos trinta anos que tornou-se rica a partir de um blog de cartas. Alix é privilegiada em todos os aspectos: rica, branca, magra, loira, ela é o padrão norte-americano de mulher bem-sucedida. Emira, por outro lado, é uma jovem negra de vinte e poucos anos que mora num local perigoso e tenta descobrir o que quer fazer da vida após a graduação. Precisando de dinheiro, ela aceita trabalhar para Alix e cuidar de Briar, a filha de três anos da blogueira. Mas, o que poderia ser apenas um simples emprego de uma mulher recém-formada que está tentando colocar-se no mercado de trabalho, transforma-se num pesadelo à medida que os acontecimentos vão se desenrolando e Alix cria uma obsessão em torno de Emira, achando que só ela poderá salvá-la.

Mas Emira não precisa de salvação. No entanto, a ideia do Grande Salvador Branco permeia o livro - e é incrível a forma como a autora, Kiley Reid, também uma jovem negra, consegue mostrar que existe racismo até mesmo em quem não se considera racista. Alix, com sua síndroma da salvadora branca, coloca-se numa posição permanente de superioridade que só piora quando ela descobre que Emira está namorando com seu ex do ensino médio, Kelley. As lembranças do namoro não são nada boas e Alix intromete-se na vida do casal a todo custo, tentando separá-los não somente para "salvar" Emira como para mantê-la para si, como babá de sua filha e protegida - mas sem possibilidades de crescimento profissional, claro.

Kelley também não é melhor do que Emira. Ele é o típico cara branco padrão, de classe média-alta, que se diz aliado na luta antirracista, mas é obcecado por pessoas negras. Ele só possui amigos negros, só escuta cantores negros e só namora mulheres negras. Dessa forma, ele sente-se justificado por ser branco - tudo isso enquanto fetichiza abertamente as pessoas e a cultura negras. Além disso, nem ele, nem Alix, respeitam sua privacidade. Emira precisa quase implorar para que eles parem de tentar forçá-la a postar o vídeo que Kelley gravou na noite em que se conheceram, quando Emira estava trabalhando como babá para Alix, cuidando de Briar num mercado perto de sua casa, quando foi abordada por uma mulher, cliente do local, e o segurança, que a detiveram e a acusaram de ter raptado a menina. Kelley estava por ali e gravou tudo, enviando o vídeo a Emira, que se recusou a postá-lo porque, ela pensou, estava procurando por emprego e não queria que aquele vídeo fosse a primeira coisa que as empresas olhassem. Mas Kelley não consegue ver para além de seu umbigo.

“Deixe-me tentar dizer isso. Você ficou empolgado quando conversamos sobre aquela noite no Market Depot. Mas não preciso que você fique bravo com o que aconteceu. Preciso que você fique bravo com o fato disso... acontecer." 

É interessante como a autora conseguiu trabalhar essa história de forma a percebermos outros tipos de racismos que vão além daquele mais óbvio e violento. Fetichizar pessoas negras ou comportar-se como o Grande Salvador Branco também é racista. E, embora a violência não seja física, ainda existe violência psicológica em tal comportamento, violência essa que pode deixar sequelas graves em uma pessoa ou mesmo destruir sua vida. Existe uma dinâmica delicada na trama, entre a amizade, o amor, a relação de trabalho e a obsessão. Os sentimentos de Emira ficam confusos e demora muito para ela conseguir enxergar o que há de errado naquela situação e tomar outro rumo. 

Gostei muito das personagens, especialmente de Emira e Alix. Ambas são bem diferentes, mas suas personalidades são construídas a ponto de ser possível conseguirmos enxergá-las como pessoas reais. Acho ótimo como a autora deu contextos independentes para elas, para além da interação entre ambas. Emira e Alix possuem amigas, família, preferências, estilos e rotinas diferentes. Claro, o objetivo é justamente esse, mas ficou muito bem feito.

Como ponto forte, é importante ressaltar a forma delicada, porém contundente, que a autora lida com o tema “racismo”. Ela nos leva a compreender como o racismo está em pequenas atitudes, mesmo naquelas que não costumamos perceber, e como pode levar a resultados desastrosos. O ponto fraco do livro, no entanto, é seu final. Ele estava perfeito até então. 

O final é a única parte que achei estranha. Me pareceu desconexo com o resto com toda aquela explicação sobre como a vida de Emira transcorreu nos anos seguintes. Poderia ter simplesmente terminado com ela arranjando um novo emprego, definitivamente não precisava daquele capítulo final. Mas isso não é nada que tire do livro seu mérito. Such a Fun Age é uma leitura não apenas boa como necessária, especialmente nos tempos que estamos vivendo. 


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