na cabeceira

literatura & diarices

Lendo O Morro dos Ventos Uivantes durante um ciclone

O mundo tem quase acabado todos os dias, mas às vezes parece que ele vai acabar de verdade. Na semana passada, quando teve o ciclone, fui pega completamente de surpresa, porque tenho me ausentado de ler notícias ou ver jornais (disse a jornalista) para tentar preservar a pouca sanidade que me resta. Não havia visto, portanto, a previsão do ciclone bomba que atingiu o sul do país - e, consequentemente, Porto Alegre e região metropolitana. Estava eu fazendo as minhas coisas, finalizando meus trabalhos, quando a internet simplesmente parou. Tudo estava conectado, mas não havia rede. Logo, uma vizinha gritou que estava sem rede. Outra respondeu. E, poucas horas depois, a luz foi embora. Ficamos no escuro e incomunicáveis por dois dias.

Não havia muito a ser feito. O dia clareia às 06h30h e escurece às 18h. Meu relógio não funciona exatamente nesses horários - na verdade, eu praticamente não durmo mas, quando durmo, é um pouco pela manhã. Porém, tentei me ajustar ao curso da luz para aproveitar o máximo possível de iluminação que pudesse. Tudo o que eu podia fazer era ler e tentar arrumar algumas coisas na casa - mas a maior parte das tarefas necessitava de luz elétrica. Portanto, me concentrei nas leituras.

Quando a luz foi embora, era de madrugada e eu já estava sem rede telefônica há horas. Como ainda tinha energia nas primeiras horas da noite, estava na cama, naquela madrugada gelada, tapada com duas cobertas, lendo O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë. A leitura estava maravilhosa, como sempre. Foi a quarta ou quinta vez que li esse livro e ele nunca deixa de me encantar. Dessa vez, a leitura foi para o Querido Clássico, já que vamos gravar um podcast sobre ele e lançá-lo no final do mês, no aniversário da Emily. A ideia era ler aos poucos durante o mês de julho e gravar o podcast ao final. Mas não pude me conter assim que comecei a lê-lo porque esse livro é simplesmente perfeito e dialoga comigo de uma forma quase sobrenatural.

Ralph Fiennes e Juliette Binoche como Cathy e Heathcliff em Wuthering Heights,  em 1992
O vento fortíssimo batia à minha janela, situada no segundo andar da casa, enquanto eu lia o livro, às 04h da manhã, na escuridão quase completa. Não fosse a vela que me fazia companhia, teria sido uma longa noite de insônia, encarando o escuro. Porém, por mais desconfortável que possa ser ler à luz de uma vela, durante um ciclone tão amedrontador que, em dado momento, podia jurar que a janela seria quebrada e parte da casa sairia voando, me senti estranhamente conectada à leitura e simplesmente não podia largá-la antes do final. O vento batia forte e uivava, e eu lia sobre Heathcliff abrindo a janela da cama-embutida da Cathy, pedindo, em meio à ventania e à chuva, para que ela voltasse, mesmo que fosse para atormentá-lo. Quase podia senti-la à minha janela também, um lembrete de que fantasmas não sentem o tempo da mesma forma que nós e que ler um livro é voltar ao passado - ou, de certa maneira, ressuscitá-lo. Quase pude ouvir a voz de Cathy no assovio do vento, dizendo que faz vinte anos que anda pelas charnecas, sem ter paz, perdida. Naquele momento, a angústia de Heathcliff era a minha angústia, assim como era meu o assombro de Lockwood, que não compreendia o que estava presenciando, mas sabia ser algo profundo e assustador, que exigia silêncio e atenção.

A casa não voou, a janela permaneceu intacta e apenas algumas telhas foram tiradas do lugar pelo ciclone. Enquanto o barulho do vento, da chuva e das telhas me chamava a atenção, eu era sugada para dentro da história de obsessão, vingança e assombração de Emily Brontë. A noite corria depressa enquanto eu virava as páginas, ao mesmo tempo leitora e partícipe daquela história, sentindo que minhas reações poderiam modificar algo escrito há quase dois séculos.

"A tempestade desabou sobre Heights com toda fúria. Ventava muito e trovejava, e, fosse por um ou pelo outro, uma árvore num canto da casa foi rachada ao meio."


Assim como o clima muda conforme os humores dos personagens em O Morro dos Ventos Uivantes, a intensidade do ciclone parecia mudar conforme os meus sentimentos durante a leitura. Quando Isabella Linton estava tentando escapar do mundo cruel de Heathcliff, lendo um livro ao lado da lareira, tudo pareceu instantaneamente calmo por aqui também, até que um forte sopro veio, tirando telhas do lugar e fazendo o vidro da janela emitir um som que me fez pensar que havia se partido - mas não havia; coincidentemente, isso foi no mesmo momento em que o livro de Isabella é tirado e Heathcliff zomba dela, violentamente, pela milésima vez, destroçando seu resignado espírito. Conforme a leitura avançava, minha mente, afetada pela história e pelo terror e magia do ciclone, parecia confundir realidade e ficção. Sentia-me dentro da história e sentia que a natureza cooperava para tal.

Terminei a leitura quando o dia clareava e, assim como Lockwood retorna à uma ensolarada e tranquila Trushcross Grange, também me encontrei com um dia claro, quase sem sinal celeste da destruição causada pelo ciclone durante a noite, que me manteve acordada meio a terror, meio a encanto. Catherine e Hareton fazem brincadeiras na sala de Wuthering Heights enquanto os fantasmas de Heathcliff e Cathy passeiam pelas charnecas sob um sol brilhante, afastando crianças de seus espíritos inquietos, finalmente usufruindo da eternidade para consumirem-se na luz. Era dia. Fechei o livro, sabendo que, assim como eles, eu finalmente poderia descansar. 

2 Comentários

  1. Nossa, Mia. Fico muito alegre e aliviada de você estar bem, como comentei, só soube do ciclone dias depois, pelo mesmo motivo seu de estar longe das notícias. Mas... Que texto! Estou envolvida por essa história desde o ano passado, terminei o filme antes do livro e que saudade me deu. É uma história muito profunda, acho que corta como o frio da tempestade. Sobre a luz de velas, eu amo. Cansa mais as vistas, mas me sinto fora do presente. Lembro que li parte de A Utopia à luz de velas, há uns dez anos. Gosto de pouca luz, ainda mais amarela e natural. Foi apavorante, mas ainda assim bonito o seu momento. E gerou uma bela história. Vou acompanhar o podcast!

    ResponderExcluir
  2. Eu também não estou mais assistindo notícias para não ficar deprê. Uau, você foi firme na leitura. Eu não consigo, o sono me vence hehehe.

    www.vivendosentimentos.com.br

    ResponderExcluir

Postar um comentário