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A Sucessora, de Carolina Nabuco

Li A Sucessora para a segunda leitura coletiva do Querido Clássico e preciso dizer que fiquei surpresa. Foi uma leitura que fiz com calma, embora a escrita fluída de Carolina Nabuco e as menos de duzentas páginas do livro convidem o leitor a simplesmente embarcar no Brasil de cem anos atrás sem contar o tempo. Porém, eu gosto de ler tranquilamente, sem pressa, especialmente quando se trata de um livro com tantas camadas psicológicas como esse. 


Em A Sucessora, conhecemos Marina, uma jovem de vinte anos que vive numa fazenda no interior do Rio de Janeiro, durante a década de 1920. Isolada do mundo moderno, Marina tem uma rotina tranquila: ajuda a mãe, Dona Emília, nos afazeres da casa, lê os livros que seu primo e noivo, Miguel, lhe recomenda e aprecia as belezas naturais do local. Tudo muda quando, certo dia, um possível comprador de outra fazenda pertencente à família chega ao local para tratar de negócios com Dona Emília. Até ali, Marina não tinha plena consciência, mas deu-se conta de que seu noivado realmente não tinha cabimento, de que não gostava daquela maneira do primo e que, ainda que morresse solteira, precisaria dar cabo daquele compromisso. Assim, em poucos dias, ela termina um noivado e ingressa noutro, dessa vez com o homem que pretendia comprar uma das propriedades, Roberto Steen. 

Roberto é um homem da cidade grande, uma pessoa do Rio de Janeiro e dos negócios. Viajado, conhecedor da Europa e prestigiado em diversos lugares, havia ficado viúvo recentemente. Madame Steen, como era conhecida Alice, sua falecida esposa dele, era admirada por todos, uma verdadeira dama da sociedade de seu tempo - da diminuta sociedade carioca que parecia tão gigantesca e refrescante para quem estava dentro dela. Mas não para Marina. Assim que o noivado, o casamento e a lua-de-mel acontecem, ela precisa lidar com a realidade de um sonho que não possui os ares oníricos que imaginara. A casa onde habitará é a mesma que Roberto dividiu com Alice, e tudo lá, dos móveis à dinâmica, possui seu toque indelével. Porém, o mais opressor é sentir a presença espiritual de Alice a observá-la do grande retrato, que lhe eterniza a figura na sala. 

Gosto de A Sucessora por ser um belo representante do gótico tropical. Marina, vivendo num palacete na cidade do Rio de Janeiro, é assombrada pelo fantasma de Alice, a esposa falecida, com quem Roberto foi casado durante quinze anos. Em Over Her Dead BodyElisabeth Bronfen fala sobre como o Heights é a sepultura metafórica de Cathy em O Morro dos Ventos Uivantes. Heathcliff, em sua dor, não permite que ninguém a esqueça, e as pessoas daquela casa são obrigadas a conviver com a presença de Cathy em cada canto, como se ela estivesse ali, os julgando. Embora sejam obras diferentes, podemos enxergar uma dinâmica semelhante em A Sucessora. O grande quadro de Alice, assim como a casa, os móveis que ela escolheu, seu grupo de amigos, tudo contribui para que a morta permaneça viva e para que Marina torne-se uma sombra, uma tentativa de substituição da outra. 

"Talvez até o amasse menos por se julgar menos necessária à sua felicidade."

Na primeira parte do livro, encontramos uma narrativa semelhante àquela dos romances de Shirley Jackson, intimista e psicológica, mas com uma atmosfera de terror à espreita. Ainda que não possa ser classificado dentro do gênero, o livro flerta com o terror por ter como protagonista uma jovem que sente-se verdadeiramente acuada dentro da própria casa. Existem momentos em que parece possível estarmos prestes a ver o fantasma de Alice sair do retrato e sentar-se ao lado de Marina. 

Entretanto, não trata-se de um livro perfeito. Seus últimos capítulos destoam completamente da narrativa construída até então e a resolução dos conflitos principais é tão abrupta que chega a ser pueril. Não fosse por isso, seria um livro perfeito. Mas ele não perde sua beleza e capacidade de nos fazer sofrer e temer junto de Marina por causa de poucas páginas finais. 

A Sucessora
Carolina Nabuco
200 páginas 
Editora Instante 
Publicado originalmente em 1934 
Ano da edição: 2018 

A impressão que tive é a de que Carolina Nabuco pensou em seguir o rumo sombrio e libertador da história, mas voltou atrás. Os motivos que a levaram a isso eu não sei; pode ter sido apego à personagem ou receio de que o livro não fosse bem aceito caso o desfecho fosse infeliz ou diferente do esperado para uma mulher daquela sociedade. Contudo, esse é o sentimento que tive ao finalizar a leitura: que a autora mudou subitamente o final da história. 

Seja qual for a verdade a respeito da criação de A Sucessora, o livro é excelente. Seu enredo é tão interessante que foi copiado por Daphné Du Maurier em Rebecca, num dos mais escandalosos casos de plágio da literatura. E, ainda que não seja tão conhecida mundialmente quanto seu plágio, a história de Marina, Alice e Roberto permanecerá lembrada como um dos melhores clássicos nacionais. 


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