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Quão diferente seria o mundo se as mulheres tivessem espaço na história?

Maria Madalena, por Jan van Scorel, 1530
Cresci numa família religiosa. Como quase toda família brasileira, tem uma parte católica e outra que se espalha por crenças derivadas do cristianismo. Alguns membros fazem ou fizeram parte de cultos de matriz africana e outros foram para o ateísmo. Mas, em suma, minha infância e adolescência foram permeadas com ritos religiosos. A Bíblia sempre esteve presente, assim como a noção de Deus, Jesus e sua história. 

No entanto, embora tenha sido criada dentro de igrejas, sempre me incomodei com algumas coisas que eram faladas durante os cultos. Desde pequena, sou dessas pessoas que estão sempre lendo. Quando criança, tive muito contato com literatura cristã, e me aventurei a ler a Bíblia - não uma, mas duas vezes. Aquelas histórias, desde o Antigo Testamento até as sombrias revelações do último livro, me fascinavam. Elas são fantásticas, repletas de heróis e dramas que não perdem nada para as tragédias gregas. Mas quase não há mulheres. 

Elas até existem, porém são constantemente silenciadas. Mulheres sem nome. Mulheres que estão ali apenas para servirem como esposas, para dar filhos, para estabelecer família. Mulheres como tentação. Mulheres condenadas por seus pecados. Mulheres não confiáveis. Aquilo me deixava desconfortável, especialmente quando começaram a falar mais sobre a doutrina de Paulo nos cultos. Seus textos dizem que as mulheres devem permanecer caladas, que elas são governadas pelo marido que, por sua vez, é governado por Cristo. Ainda que Jesus tenha estabelecido uma ponte direta entre a humanidade e Deus, o humano ainda era masculino - às mulheres só restava a espera silenciosa. 

Não foi, portanto, sem entusiasmo que encontrei The Book of Longings (O Livro dos Anseios, ainda não publicado no Brasil). Já estou há muitos anos distanciada da igreja e de religiões, embora meu fascínio pela história envolvendo a fé ainda permaneça. O livro de Sue Monk Kidd reúne toda a minha inquietação durante o crescimento dentro dos cultos e minha vontade de conhecer melhor a história, especialmente a história das mulheres silenciadas. 

Nele, conhecemos Ana, a esposa de Jesus. Acompanhamos sua adolescência, o encontro com Jesus, o casamento e sua vida longe dele, em Alexandria. É possível descrever o livro dessa maneira. No entanto, não estaria sendo completamente honesta se o fizesse, porque ele é muito mais do que isso. Ser esposa de Jesus é algo de que Ana gosta, faz parte de sua vida, mas não é sua vida. Ela é alguém para além dele, ela é uma voz

"Para uma mulher, dar à luz algo que não fossem filhos e depois cuidar disso com o mesmo senso de propósito, com a mesma atenção e com o mesmo carinho era espantoso, e eu não era exceção."


Ana anseia por escrever. Aprendeu, a contragosto da família, a ler e começou a escrever, ora escondida, ora em desafio a todos. Seus escritos concentravam-se nas histórias bíblicas de mulheres sem voz. Posteriormente, passou a dar foco às vidas de mulheres reais, da família ou amigas, que também mereciam ter suas histórias contadas. A violência e o desprezo dentro de casa a levam aos braços de um homem que conheceu por acaso na rua, enquanto era vendida em casamento - Jesus, aquele com quem viria a realmente casar. 

Embora seja impossível dizer que um romance sobre a esposa de Jesus não será interessante por tê-lo como um dos personagens, a história é toda de Ana e as partes mais incríveis se passam entre ela e sua tia, Yalta, e posteriormente, no Egito, quando ambas vão para a cidade de Alexandria. As passagens na biblioteca de Alexandria são emocionantes de formas que apenas quem até hoje lamenta tudo o que foi perdido lá entende. 

O que mais me emocionou, no entanto, é a nota da autora, ao final do livro. Nela, ela fala sobre como a história ficou em sua mente por quinze anos, como ela ficou pensando sobre Ana por todo esse tempo. Até que um dia a história a chamou; era hora de escrevê-la. A ideia nasceu de uma simples, mas poderosa, questão: "quão diferente seria o mundo ocidental se Jesus fosse casado e sua esposa tivesse sido incluída em sua história?". Não é preciso ir muito longe no pensamento para compreender a importância de tal pergunta. 

E se as mulheres da Bíblia tivessem vozes? E se os grandes profetas, os homens santos, fossem casados com esposas que desempenhassem um papel para além da subserviência, que realmente tivessem suas vidas narradas, com personalidade, lembranças, anseios? Como estaríamos hoje? Me atrevo a dizer que a sociedade seria um pouco melhor. 

Esse apagamento feminino não é à toa, como bem sabemos. Mas a ideia de um Jesus completamente divino, com sua existência humana cortada fora, só surgiu séculos após os acontecimentos dos evangelhos bíblicos. Foi uma questão decidida entre muitos debates com homens que procuravam decretar o significado de santidade e moldar aquilo que as pessoas deveriam seguir - e no que deveriam se espelhar. Um Jesus casto parecia ser o mais adequado, uma ideia que levou a muita matança ao longo dos séculos. 

Contudo, não entrando nesse mérito, o que posso dizer é que ler sobre Ana é saber que, ainda que fictícia, existe poder nas palavras de uma mulher e em sua vida anônima. Ela pode não ter existido, mas quem sabe quantas outras não se perderam na história? É algo a se pensar. 

"Quando eu for pó, entoe estas palavras sobre meus ossos: ela foi uma voz." 

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