na cabeceira

literatura & diarices

Outlander, 4ªtemporada: sensível, mas com erros inaceitáveis


Em um mundo cada vez mais repleto de séries televisivas para todos os gostos e de nichos distintos bem definidos, Outlander parece agradar a públicos variados e unir muitas tribos na frente de uma tela para acompanhar os dramas de se viajar no tempo e viver amores e ódios na Escócia do século XVIII. O sucesso de adaptação dos livros de Diana Gabaldon finalizou recentemente sua quarta temporada em uma tentativa de promover um discurso mais politizado e crítico, mas que acabou caindo para o problemático por não saber abordar corretamente os temas a que se propôs.

A temporada abre com uma confusão: nas terras norte-americanas em 1767, os heróis da série Claire (Caitriona Balfe) e Jamie (Sam Heughan) estão novamente lidando com um problema envolvendo um de seus amigos; o centro do problema dessa vez é Gavin Hayes (James Allenby-Kirk), condenado à morte pela forca pelos britânicos. Claire, Jamie e seu grupo estão aguardando pela execução de Hayes em praça pública para lhe prestarem homenagem e um enterro digno após sua morte. Logo após o cumprimento da sentença, uma confusão acontece e um dos condenados escapa, escondendo-se na carroça de Jamie juntamente com o corpo de Hayes. Seu nome é Stephen Bonnet (Ed Speleers), um nome que infelizmente não será esquecido tão cedo na temporada. Após sua fuga da forca, Bonnet finalmente revela sua presença a Claire, Jamie e seus amigos, que lhe prestam ajuda, escondendo o fugitivo de soldados britânicos e lhe auxiliando em sua escapatória. Tal ação não passaria em vão e não deixaria de ser lamentada.

Enquanto isso, em 1971, Brianna Randall (Sophie Skelton) tem seu reencontro com Roger MacKenzie (Richard Rankin), seu amigo e ocasional flerte, o único que conhece a história de sua mãe, Claire, e suas viagens através do tempo para a Escócia na época da invasão britânica. A relação entre eles, que não se viam há um bom tempo, já que Brianna é uma estudante universitária nos EUA e Roger, um professor de história nas Terras Altas escocesas, é repleta de pausas e incertezas, contudo Roger é o único que realmente compreende o drama vivido por Brianna por ter perdido seu pai, Frank (Tobias Menzies), e a mãe, que resolveu voltar no tempo após saber que Jamie havia sobrevivido à Batalha de Culloden, abandonando sua vida, sua carreira e sua filha para estar com seu amado.

Os momentos iniciais da temporada que focam em Brianna e Roger são visualmente muito bonitos e repletos de significado. Visitando os EUA não apenas para vê-la, mas também para estar presente em um festival escocês que aconteceria lá com os descendentes de colonizadores escoceses em território norte-americano, Roger leva Brianna para conhecer sua cultura, que agora não é apenas mais uma apresentação a algo pertencente à vida de seu amigo e interesse amoroso, mas principalmente um resgate a raízes que ela nem sabia que tinha até pouco tempo atrás, quando Claire finalmente revelou a identidade correta de seu pai biológico, Jamie. Tendo sido criada a dois séculos de distância do pai e em um continente diferente, Brianna possui sentimentos confusos em relação a esse passado que nunca foi real para ela, nutrindo conflitos internos em sua relutância para aceitar sua curiosidade acerca de algo que também faz parte de si mesma e ainda respeitar a memória de seu pai de criação. No entanto, seu sofrimento é amenizado por um momento, já que Roger lhe ajuda a explorar esse mundo escocês com uma desculpa boa o suficiente para que ela o conheça — e conheça suas origens — sem se sentir uma traidora da memória do pai.


O que poderia ter sido um alívio para a cabeça de Brianna se transforma em uma lembrança dolorosa quando Roger, confiante de seu amor por ela, lhe propõe casamento subitamente, se recusando a respeitar sua individualidade e sua trajetória. Tal proposta exigente quebra o ritmo de relacionamento entre os dois e leva Brianna a um caminho perigoso, um que ela trilha sozinha ao decidir, após uma descoberta inquietante sobre o passado, viajar no tempo sozinha através das pedras para ir atrás de sua mãe em 1767. É interessante como o ponto central da trama da quarta temporada é Brianna e sua luta por independência e pelo que acha que é certo. Houve muitos comentários desaprovando a centralidade da narrativa nela, mas o arco de Brianna é importantíssimo e foi contado com muito cuidado e delicadeza, e nisso certamente eles acertaram, pois apesar dos erros que os homens ao redor dela cometem — desde os mais banais até os mais vis e dolorosos —, ela é uma fortaleza, nunca se rendendo e se mostrando firme em todos os momentos.

O fio condutor da 4ª temporada é o arco de Brianna, que se desenvolve mais a cada episódio, mostrando-se uma adepta do discurso feminista que inundou as universidades na década de 1970. Apesar de não haver menções diretas ao feminismo, podemos vê-lo na postura de Brianna, que recusa o casamento para focar nos estudos e, quando julga necessário, viaja 200 anos no tempo para salvar sua mãe de um futuro trágico. No entanto, sua viagem a leva a 1767 e ainda estamos falando do século XVIII, um tempo em que, por mais avanços que já tivessem ocorrido, ainda tratava as mulheres como propriedades públicas, vendo seus corpos como meras fontes de prazer e procriação. Após uma longa jornada da Escócia e de seus perigos até chegar nos inóspitos EUA daquela época, sozinha e sem conhecer ninguém além da mãe a quem procurava, Brianna é surpreendida por Roger, que também decidiu viajar através do tempo para encontrá-la e resgatá-la de sua própria decisão. O encontro é emocionante e ambos se reconciliam quando Brianna, deslumbrada por aquele grandioso gesto, aceita se casar com ele. Após um ritual escocês de casamento temporário (handfast, uma união com duração de um ano e um dia para casais que estão longe de um padre para realizar o casamento), eles têm sua primeira vez e, logo em seguida, entram em uma briga que leva Roger a abandonar a sua agora recém-esposa num local inóspito e perigoso.

O abandono de Roger leva Brianna de volta ao local onde estava hospedada na cidade. Chegando lá ela dá de cara com Stephen Bonnet, o mesmo homem que seus pais salvaram da morte no episódio inicial. Bonnet, um vilão tão terrível quanto Black Jack Randall (Tobias Menzies), faz o que já era esperado de um homem mau e bêbado: estupra Brianna violentamente. A cena do estupro é particularmente dolorosa: Brianna, indefesa nas mãos de Bonnet, gritando por socorro para uma hospedaria lotada que conseguia ouvi-la, mas que não fez absolutamente nada para defendê-la. A passividade nos rostos dos homens presentes no cômodo ao lado que ouviam os gritos de Brianna é mostrada claramente e é um retrato fiel do que ocorre ainda hoje em muitos locais, quando pessoas ditas de bem, trabalhadoras e honradas, olham para o lado e cuidam de suas próprias vidas ao se depararem com um ato violento sendo infligido contra alguém, especialmente se esse alguém fizer parte de alguma minoria. Contudo, apesar da cena ter sido muito bem feita e focada nas reações inexistentes daqueles que não moveram um dedo para ajudar Brianna, ainda é necessário nos perguntarmos se realmente era preciso inserir um estupro na vida da personagem para dar sentido à sua trajetória. Claro que o estupro era um ato comum demais naquela época (não que infelizmente não o seja hoje, mas há mais impeditivos atualmente do que no século XVIII) e não é historicamente incorreto o que aconteceu a Brianna, porém estamos cansadas de ver arcos de sofrimento e amadurecimento de mulheres provocados por estupros. A violência sexual não dignifica, apenas fere e essa narrativa precisa parar. Brianna não precisava ter sido estuprada para ter seu arco de gravidez e crescimento. Isso foi um erro na trama. Ainda não li os livros nos quais a série é baseada, entretanto, mesmo que tal desenvolvimento tenha vindo da autora e não das pessoas por trás da série, a justificativa ainda não se sustenta. Estupro não é recurso narrativo.

Também é preciso falar sobre como Outlander usa o estupro como algo banal, que vira e mexe está acontecendo com suas personagens. Claire já foi estuprada algumas vezes na série, mas muitas pessoas nem perceberam, já que a ela nunca foi dado o tempo para processar o estupro e lidar com a dor. Os abusos por que passou foram sempre justificados como recursos narrativos para justificar a raiva ou mostrar os perigos da época. Já Jamie, que também passou por um estupro na 1ª temporada, teve diversos episódios para lidar com o trauma; gentileza que não foi concedida às mulheres da série.


Apesar de todo o discurso histórico politicamente correto e essencial, tratando de questões importantíssimas como a escravatura norte-americana e a invasão às terras indígenas nos EUA, não podemos deixar de ressaltar que essa foi uma temporada repleta de violência romantizada. Todo o arco entre Brianna e Roger é problemático. Desde seu início, Roger sempre quis pôr amarras em Brianna, tentando obrigá-la a se casar com ele, largando seus estudos na faculdade, e a fazer tudo conforme ele queria, sem considerar as vontades dela. Numa cena particularmente horrível, ainda em 1970, ele se horroriza quando ela cogita a ideia de dormir com ele sem estarem casados ou ao menos noivos, sem a garantia de que ela pertencesse a ele, indicando que só dormiria com ela se ela aceitasse ser sua noiva. Quando ela recusa se comprometer em um noivado apressado apenas para transar, ele fica injuriado e rompe com ela. Brianna ainda aponta a hipocrisia de Roger ao lembrá-lo de que ele não é virgem e nunca teve problemas em dormir com mulheres sem estar formalmente comprometido com elas, ao que ele responde, de forma possessiva, que nunca nutriu sentimento por elas, ao contrário do que sente por Bree, e isso parece ser perfeitamente justificável para ele.

Como se não bastasse tal comportamento, após ser totalmente péssimo ele tenta se redimir viajando pelas pedras até o passado para encontrá-la e recuperar seu amor. Por algum motivo, as pessoas acham que os sofrimentos por que Roger passa em sua viagem ao século XVIII justificam seu comportamento possessivo e agressivo para com Brianna, contudo não há romantismo algum em perseguir uma mulher a quem ele humilhou apenas para cobri-la de elogios, casar-se com ela em um ritual escocês, finalmente transar com ela e deixá-la sozinha após uma briga que poderia simplesmente ter sido resolvida caso ele tivesse sido sincero desde o início. É importante lembrarmos que Roger, apesar de não pertencer àquele tempo, não é um homem que desconhece o mundo em que está, já que é especialista em História — inclusive professor universitário — e sabe muito bem os perigos que rondavam uma mulher em 1769. Se hoje, com representação feminina na política e leis que nos asseguram direitos e proteção, ainda temos um número alto de feminicídios, estupros e agressões de todos os tipos, imagine o que era em uma época em que a mulher não tinha direito legítimo a voz e não era reconhecida de forma respeitosa a não ser que fosse casada e estivesse acompanhada do marido. A escolha de Roger ao deixar Brianna sozinha após uma briga não é apenas egoísta como determinante para compreendermos sua personalidade: se não fizer o que eu quero ou não reagir da forma como espero, vou lhe abandonar. Isso é abusivo de todas as formas e acredito ser um erro colocarem-no como par romântico de Bree na série.

É claro que devemos lembrar que Roger não é um homem do nosso tempo e possui a mente dos homens da época, que não eram tão progressistas quanto hoje em dia e ainda viam a mulher como um objeto, acreditando que o honroso era proteger a mulher a quem se ama com um sobrenome adquirido pelo casamento, como se ela fosse sua propriedade. Contudo, o fato de ele ser um perfeito intelectual dos anos 1970 não lhe apaga os defeitos nem o protege de uma problematização merecida, já que foram suas decisões egoístas e mesquinhas que fizeram com que Bree passasse por muitas das coisas horríveis. Sim, Roger tem o direito de se redimir, mas nós não queremos mais ver histórias de homens abusivos — emocionalmente e/ou fisicamente — que se redimem de todo o mal que causaram através de um grande ato de amor. Atos de amor nunca pouparam mulheres de sofrimento. A série já mostrou diversas vezes que não é impossível construir personagens masculinos de épocas antigas que entendem que as mulheres de suas vidas são pessoas tão livres quanto eles e que as respeitam. Tanto Jamie quanto Frank são exemplos de homens que poderiam ser o que há de pior no gênero, mas que respeitam Claire e outras mulheres além dela. Outro personagem masculino que também se destaca é Lord John (David Berry). Ele, um homem da alta hierarquia do exército britânico do século XVIII, com todas as oportunidades para fazer o que bem entendesse sem que consequências lhe atingissem, mas que ainda é uma pessoa digna e respeitosa. Roger é tão horrível com Brianna que não foram poucas as pessoas que comentaram em redes sociais que gostariam que Bree e Lord John se tornassem um casal — isso simplesmente porque John faz o básico e lhe trata como todos deveriam tratar as mulheres. Não sei qual será o futuro do relacionamento de Roger e Brianna, mas espero que os roteiristas repensem a decisão de deixá-los juntos, pois definitivamente não precisamos de mais um relacionamento abusivo disfarçado de amor na televisão.


Ainda que seja centrada em Brianna e nas consequências do estupro que sofreu, não há como desprezar outros erros inaceitáveis que existem na série. Enquanto Bree segue seu turbulento caminho até encontrar sua mãe, Claire e Jamie tentam levar uma vida em terras norte-americanas. Decididos a permanecer lá e criar um lar para viverem seus dias de maturidade em paz, eles vão para River Run, propriedade da riquíssima tia de Jamie, Jocasta (Maria Doyle Kennedy). Decidida a fazer de Jamie seu herdeiro e futuro administrador de River Run, Jocasta lhe oferece moradia e tenta lhe enturmar com as autoridades locais, amigos e parceiros comerciais. No entanto, por mais que os talentos de Jamie com negócios o façam se sobressair aos olhos dos outros, a existência de pessoas negras escravizadas no local não permite que eles continuem lá.

O segundo episódio da temporada, “Do No Harm“, é uma das coisas mais sensíveis que já vi em séries sobre a escravidão norte-americana — ao menos nas cenas que focam nos escravizados. Ao tentarem salvar um homem escravizado da morte pelas mãos de uma das autoridades locais, Claire e Jamie se deparam com uma situação impossível, em que ou entregam o homem para ser morto ou o matam misericordiosamente antes que ele seja torturado por outros até morrer. É horrível de assistir ao sofrimento das pessoas escravizadas e, ao ver esse episódio, que é uma pequena obra-prima da televisão contemporânea, pensei que a temporada seria maravilhosa, já que abordaria o tema de forma sensível e real. Outlander é uma produção majoritariamente centrada em pessoas brancas, com cultura branca e hétero, que basicamente não toca em pautas polêmicas para além da violência contra a mulher, e “Do No Harm” acaba sendo apenas um ponto fora da curva, no entanto. Não é só que Outlander é uma série feita por pessoas brancas; ela é uma série de brancos que não parecem ter ouvido pessoas negras, indígenas e outros grupos minoritários para costurarem o roteiro de maneira adequada e, infelizmente, o episódio serve apenas para cumprir a cota sobre a escravidão. Durante todo o resto da temporada, o assunto é deixado de lado e as personagens continuam a interagir com pessoas escravizadas normalmente, sem demonstrar qualquer perturbação por estarem sendo servidas por pessoas que foram brutalmente arrancadas de seus lares, de suas famílias, de sua terra e cultura, sendo obrigadas a estarem ali, servindo pessoas brancas e ricas, sob pena de morte a qualquer traço de insubordinação.     

Como disse Genevieve Valentine para o The New York Times: “a capacidade do programa de colocar uma distância crítica entre o modo como vemos esses personagens de apoio e a maneira como eles se veem nos leva a pensar em como isso representaria alguns desses pontos da trama se os heróis não fossem Jamie e Claire. Um homem branco pega em armas contra um governo sufocante e depois desiste da ideia de libertar escravos depois de saber que existem leis contra ele. Uma mulher abolicionista branca prova um vestido justo quando a escrava Phaedre (Natalie Simpson) elogia seus olhos, peito e pele. Nenhum deles parece particularmente confortável, mas também não descartaram suas roupas extravagantes, fizeram as malas e foram embora”. Após esse episódio, todos parecem confortáveis o suficiente e o tema não é mais discutido. Uma escolha problemática, no mínimo.


A temporada se passa majoritariamente no que seria os Estados Unidos do século XVIII, repleto de escravidão e massacre aos indígenas. É de se pensar que eles abordariam tais pontos com mais sensibilidade, mas o máximo que temos são algumas comparações, fazendo paralelos entre o estilo de vida highlander dos escoceses, que foi destruído pelos britânicos, e o extermínio dos indígenas norte-americanos. É absurdo querer comparar uma coisa com a outra. Apesar de a invasão britânica ter sido cruel aos escoceses, eles não sofreram um genocídio, como os indígenas sofreram. Em nome de uma terra de liberdade para todos, eles foram cruelmente massacrados até serem reduzidos a algumas reservas no país. A dimensão disso é algo talvez apenas comparável ao que aconteceu no Brasil quando os portugueses aqui chegaram, mas certamente não pode ser comparada com o que ocorreu na Escócia.

Outro erro grave da série é a forma como introduzem e elaboram os encontros de Claire e Jamie com tribos indígenas locais (os Cherokee e os Mohawks). O único relacionamento que realmente parece ser representado em pé de igualdade entre os povos indígenas e os protagonistas brancos da série é o de Claire e Adawehi (Tantoo Cardinal), a curandeira da tribo Cherokee que mora perto das terras de Jamie. No entanto, tal amizade baseada entre trocas de conhecimentos sobre cura, chás e risos é subitamente acabada quando Adawehi é assassinada por um senhor alemão que mora nas redondezas e culpa o povo Cherokee pela morte de sua família através de uma suposta maldição. Essa foi a única vez em toda a temporada que vi eles realmente acertarem o tom, mostrando que os indígenas estavam apenas vivendo suas vidas quando o homem branco, repleto de preconceitos, invadiu suas terras e os assassinou. No entanto, quantas vezes uma personagem não-branca terá que morrer para que possamos ver a tristeza e indignação da protagonista branca?

O arco seguinte é a problemática representação dos Mohawks. Num arco que dura metade da temporada, Roger é vendido aos Mohawks e escravizado por eles, que durante vários episódios são cruéis e lhe infligem torturas e zombarias. O paralelo entre as pessoas negras escravizadas por Jocasta em River Run e Roger escravizado pelos Mohawks é no mínimo de mau gosto. Não entrando no mérito histórico, representar indígenas como selvagens e brutos é algo inaceitável nos tempos atuais. Na visão do homem branco, tribos indígenas são violentas e só entendem a linguagem dos mitos e da luta. A realidade, no entanto, sempre se provou diferente quando paramos para analisar os fatos sem o preconceito contra o estrangeiro que não se porta conforme as regras sociais às quais estamos acostumados. É verdade que há momentos em que um diálogo aberto e compreensivo é travado entre os protagonistas e representantes indígenas, mas apesar da boa intenção em mostrar que o homem branco e o indígena são o mesmo e podem muito bem ser amigos, a forma escolhida para representar as tribos foi infeliz. 


O único que parece tentar de fato compreender a visão dos indígenas na série é Ian (John Bell), que apesar das reprimendas de Jamie e dos avisos de Claire para que tome cuidado com eles, vai realmente conhecê-los, procura aprender as línguas tanto dos Cherokees quanto dos Mohawks e entende que eles não vão atacá-lo desde que ele os respeite e não tente roubar suas terras. Tanto que sua decisão final o faz ser aceito pela tribo Mohawk em troca de Roger, e Ian, ao invés de lamentar e ver aquilo como um castigo do qual tentará escapar o mais rapidamente possível (como Jamie lhe propôs), joga de acordo com as regras dos Mohawks e fica genuinamente feliz ao ser aceito por eles. O que me incomoda é que Ian seja visto como um aventureiro por isso e não como alguém em quem todos ali deveriam se espelhar, que deixa os preconceitos de lado e vai realmente tentar conhecer essas pessoas ao invés de fazer suposições e tentar ganhar as terras delas à força.

A temporada, no geral, é bem problemática. Houve alguns acertos (como a conversa de Claire com Brianna quando Bree lhe conta que está grávida, provavelmente de Bonnet, e Claire se oferece para fazer o aborto do feto), mas no geral o sentimento que fica é de que há coisas que não podem ser desculpadas. Estamos em 2019 e é cada vez mais importante que temas delicados como a escravidão e o genocídio indígena sejam tratados da forma que merecem, não como contexto para desenvolver os protagonistas brancos. Assim como é inaceitável que estupro seja usado como recurso narrativo. Ou que relacionamentos abusivos sejam romantizados e o homem seja sempre desculpado porque tem uma personalidade forte. Isso tem que acabar. Ainda espero ver mais de Brianna na próxima temporada, mas não sei se Outlander continuará a ter muitos fãs se permanecer com esses discursos.

0 Comentários