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literatura & diarices

Permitindo o nada

The favourite, de John William Godward (1901)

Aceitar que eu sou uma pessoa só e não consigo fazer tudo talvez seja o meu maior desafio. Poderia facilmente ser chamada de workaholic, embora eu acho que o mais adequado seria dizer que eu sou simplesmente uma pessoa que gosta de estudar, aprender e fazer coisas novas. Mas quando estamos inseridos numa sociedade onde precisamos ser produtivos o tempo inteiro, a aprendizagem se torna utilitária e o tempo vira escasso, pois é moeda. O fazer nada, no sentido de fazer algo que não vá necessariamente nos gerar uma renda, parece risível, perda de tempo. No entanto, não é apenas importante como necessário. 

Faz alguns meses que estou lendo How to do nothing: resisting the attention economy, da Jenny Odell. A leitura está demorada porque ultimamente tenho lido bem devagar. Leio alguns capítulos, paro, reflito, faço anotações, deixo a leitura descansar e me dou tempo para pensar no que li e fazer conexões com a minha realidade. Essa postura, embora tenha tudo a ver com o livro, não vem dele. É algo que adotei como regra faz algum tempo. Não apressar os processos, curtir a jornada, me permitir ler com calma, assistir tranquilamente, escrever em meu próprio tempo. 

Durante a faculdade, estudei bastante sobre a economia da atenção. O fenômeno é algo bem preocupante porque, de uma maneira ou de outra, todos nós estamos inseridos nele - e não há muito o que fazer a respeito. Tomar consciência das nossas ações e de como lidamos com o tempo e interagimos com o mundo é um passo, mas é difícil se desconectar do automático de verdade e viver plenamente, com a atenção real em tudo o que fazemos, uma coisa de cada vez. 

Antes de trocar para o jornalismo, quando eu ainda estava na pedagogia, conheci Jorge Larrosa Bondía, um teórico da filosofia da educação. Seu artigo Notas sobre a experiência e o saber da experiência é o meu preferido dentre todos que já li. Volta e meia abro o arquivo, releio, marco passagens e reflito sobre o que significam aquelas palavras. O artigo originalmente era um discurso, proferido em 2001, e é assustador pensar que faz quase vinte anos que ele foi escrito e ainda é tão real. Nele, Larrosa Bondía afirma que vivemos numa sociedade da informação, mas não da experiência.

“o sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela informação e pelo saber (mas saber não no sentido de ‘sabedoria’, mas no sentido de ‘estar informado’), o que consegue é que nada lhe aconteça”

Conversando com a Marina, descobri que por algum motivo ambas temos tido encontros com a figura do rato, seja na vida real, em sonhos ou em filmes, livros e séries. Começamos a tentar compreender se existe algo por trás do rato que não estávamos percebendo. Para começar, estamos no ano do rato. Além do óbvio, que é a forma como o rato é o animal que inicia o calendário chinês, podendo indicar, assim, que este foi/está sendo um ano de começos em alguma esfera, também trata-se de ajustar o pensamento e a ação, saber adaptar-se. Mas o rato está presente em outro símbolo que me chamou atenção. Ganesha, o deus da sabedoria e da abundância no hinduísmo, cavalga um rato. Na história que explica por que ele está associado ao rato, somos ensinados sobre a importância do autocontrole sobre a dispersão. O rato é ambicioso e inquieto, enquanto Ganesha representa sabedoria e paciência. A lentidão necessária para viver uma experiência concreta. 

Dia desses, sonhei que um rato fugia de mim. Eu corria e corria, ele também, mas logo parava, sentava no chão e me encarava, debochado. No sonho, eu não media distâncias para ir atrás dele. Mas o que esse rato significava? E por que eu permitia que seu deboche me afetasse? 

Na outra parte do sonho, eu deixava o rato correndo em seu jogo sádico sozinho e aceitava o desafio da serpente, que surgiu em meu caminho para que eu aprendesse a ser mais como ela, me arrastando no chão junto a ela e a comendo no final para que eu pudesse ser como a serpente. Foi um pouco perturbador, mas parecia fazer sentido dentro daquela fábula. 

Se formos seguir pelo caminho do hinduísmo para interpretar a serpente do sonho, chegaremos a Ananta, a serpente mitológica que simboliza a eternidade e a ausência de tempo. É o tempo sem tempo novamente batendo à minha porta, sendo o grande tema dos meus pensamentos. É o permitir-se viver num estado de tempo sem tempo, sem pressa, sem a correria para fazer tudo ontem, ler tudo, escrever tudo, saber tudo, estudar tudo, falar com todos, estar sempre disponível. É a sabedoria da serpente, que permanece firme no chão, ainda que todos corram. 

“Esse sujeito da formação permanente e acelerada, da constante atualização, da reciclagem sem fim, é um sujeito que usa o tempo como um valor ou como uma mercadoria, um sujeito que não pode perder tempo, que tem sempre de aproveitar o tempo, que não pode protelar qualquer coisa, que tem de seguir o passo veloz do que se passa, que não pode ficar para trás, por isso mesmo, por essa obsessão por seguir o curso acelerado do tempo, este sujeito já não tem tempo.”

Ano passado, li um livro que tornou-se um favorito. O dia em que Selma sonhou com um ocapi, da Mariana Leky, possui uma história simples, com ares de realismo mágico, que me conquistou por ser  bonito e também por ser justamente tudo o que eu precisava em um livro naquele momento. Numa cidadezinha, todo mundo sabe que cada vez que Selma sonha com um ocapi, alguém morre dentro de vinte e quatro horas. E, embora a rigidez dessa regra paire como uma lâmina sobre as cabeças dos moradores locais, eles seguem vivendo suas vidas como se nada estivesse acontecendo, porque não há como parar o tempo ou mandar nas leis do universo. Tem coisa que a gente só aceita. 

Ainda que esse ponto da trama seja importante na história, ele não é central. Após certo acontecimento, alguns anos passam e conhecemos melhor a neta de Selma, agora uma jovem mulher que vive sua vida tranquilamente na cidadezinha. Até que conhece um monge budista, por quem se apaixona. 

Eu não gosto de romances no sentido histórias de amor. Não sou uma pessoa romântica e costumo ignorar casais na ficção. Mas a jovem e o monge budista permaneceram na minha mente porque seu desenvolvimento é real e saudável. Para além disso, eles representam algo na trama, seu relacionamento não existe apenas porque sim, há um sentido por trás de suas ações. Ali estão duas pessoas que tecnicamente não deveriam ficar juntas, mas que se permitem viver o tempo, um dia de cada vez, sem afundarem-se em angústias românticas sobre tudo o que devem fazer antes que ele tenha de partir, sobre decisões urgentes e uma correria que não dará em nada e só trará frustração. A doutrina budista se faz presente no livro todo, em todas as personagens, ainda que de formas diferentes para cada uma. Não de uma forma religiosa ou doutrinária, mas apenas no sentido de ter calma, olhar com atenção, estar presente no presente, fazer uma coisa de cada vez. Porém, é neles que temos a expressão mais clara de como esse correr infinitamente atrás de um rato que tudo quer fazer, a todos os lugares quer ir e a tudo se ajusta é loucura. O tempo não nos pede essa pressa, somos nós quem a estipulamos e nos destruímos no processo. Fazer as pazes com as nossas limitações é o objetivo, não transformarmo-nos em super-humanos, quase um maquinário, sempre correndo, sempre querendo mais, fazendo o lazer ser trabalho. 

Pode ser difícil, mas é necessário. Num mundo de ritmo acelerado, precisamos encontrar refúgios. 

Ser produtivo não é apenas fazer coisas novas ou estar sempre ocupado, mas manter funcionando aquilo que já existe. Fazer o reparo, ajustar as pontas, cuidar de si mesmo, olhar para dentro. Permitir-se parar pode ser a coisa mais importante que você vai fazer. 

"Numa situação onde todo momento no qual estamos acordados se tornou parte do tempo em que produzimos nosso sustento, quando submetemos até o nosso lazer para avaliação numérica via likes do Facebook e Instagram, verificando constantemente seu desempenho como alguém que checa um estoque, monitorando o andamento do desenvolvimento da nossa marca pessoal, o tempo se torna um recurso econômico que não podemos mais justificar gastar em 'nada'."

(Jenny Odell, How to do nothing - tradução livre)



Este texto foi escrito para o Estação Blogagem, uma iniciativa da Gabi e da Aline para agitar a blogosfera. 


tema de 15 a 21.11: ouros

Terra, trabalho, dinheiro, produtividade, o suor do rosto: cabe muita coisa dentro do baú do naipe de ouros. O que acontece se você jogar essa riqueza na escrita? Publique no seu blog e participe da blogagem coletiva: #estacaoblogagem.

1 Comentários

  1. Gostei do simbolismo do rato como alguém de mente ambiciosa e inquieta. É um animal muito inteligente, afinal! Esse ensaio do Bondía é excelente. Adorei o texto!

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