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A casa assombrada, de John Boyne

Eu amo histórias góticas. Se contar com um enredo envolvendo fantasmas, então, já fico animada. Portanto, não foi por acaso que peguei A casa assombrada, do John Boyne, pra ler. Lembro que a primeira coisa que me chamou a atenção nele foi a capa. Eu estava passando na frente de uma livraria quando o vi e fiquei pensando que queria demais ler aquele livro. Mas isso já faz uns bons anos. Só agora, entretanto, com o exemplar que a Companhia das Letras me enviou, pude lê-lo. 

Eliza Caine é uma jovem de 21 anos que mora em Londres com o pai. Os primeiros capítulos do livro são destinados a apresentar a vida da protagonista, que trabalha como professora em uma escola para meninas e passa o tempo livre junto do pai, um entomologista. Certo dia, seu pai insiste em ir até uma apresentação de leitura pública de Charles Dickens, um dos maiores escritores da era vitoriana. Dickens costumava fazer essas leituras de seus livros e contos, reunindo grandes multidões, e o pai de Eliza fica eufórico com a ideia de poder estar perto de seu escritor preferido. Mas o tempo com neve e frio faz com que ele adoeça e morra, deixando Eliza sozinha no mundo. Ela logo lê um anúncio num jornal pedindo por uma governanta em Norwich, Norfolk, no interior da Inglaterra. O ano é 1867 e Eliza não tem ninguém no mundo, então decide largar seu emprego na escola e partir no próximo trem, em busca de uma nova vida. 

Esse início extremamente melancólico logo é transformado numa narrativa de mistério no momento em que Eliza chega à mansão onde deverá trabalhar. Gaudlin Hall é uma casa muito antiga, que data do século XVII e já recebeu o próprio rei da Inglaterra. No entanto, embora imponente, a casa parece abandonada. Eliza não sabe de nada dos patrões ou de por quantas crianças será responsável. Ela só sabe que está lá e tem uma função a desempenhar. 

Isabella, uma menina de treze anos, a recebe, junto de Eustace, seu irmão mais novo. Mas são apenas eles e Eliza na casa, mais ninguém. Não há nenhum adulto para recepcioná-la, ninguém que lhe explique as regras do local, que lhe apresente a antiga mansão. Eliza Caine está sozinha com duas crianças numa casa estranha. É uma situação no mínimo intrigante. 

Conforme o tempo vai passando, Eliza percebe que há algo de muito errado com aquele local. Isabella é uma criança estranha, que fala como uma adulta e consegue deixar qualquer um desconfortável. Eustace, ainda que querido, parece estar sempre sendo reprimido por algo ou alguém. Fora isso, há acontecimentos simplesmente inexplicáveis que só podem remeter a algo sobrenatural. 

"Fiquei parada, com o coração acelerado. Não tinha sido minha imaginação. Duas mãos tinham agarrado meus tornozelos e me puxado - eu ainda podia senti-las."

Como disse anteriormente, eu amo histórias góticas, ainda mais quando elas possuem elementos sobrenaturais. O terror é uma zona de conforto para mim e gosto demais de livros que se passam no século XIX - então, quando uma obra reúne essas duas coisas, me sinto automaticamente atraída por ela. Mas vamos começar dizendo que, embora muito se tenha falado sobre esse livro ser gótico, ele não se encaixa direito no subgênero. A casa assombrada possui alguns tropos góticos, mas eles não são o suficiente para que possamos colocá-lo na prateleira de romances desse tipo. Não é porque há muita névoa, uma mansão, crianças assustadoras e um mistério que o livro é gótico. 

Sobrou, então, o tema terror. Ele é de terror? Bem, ele tem vários elementos do gênero, então sim. E, embora o terror não precise assustar, é um pouco decepcionante a forma como ele é tedioso nesse livro. É tudo muito clichê. E, geralmente, eu não me importo com clichês. Até porque, ao meu ver, o autor tentou fazer uma homenagem a grandes clássicos do terror, como A Outra Volta do Parafuso, A Assombração da Casa da Colina e Rebecca (da plagiadora Daphné Du Maurier). Durante toda a história, além das diversas menções a obras de Charles Dickens, temos uma estrutura que costura partes dos livros mencionados. Mas isso é feito de forma a forçar uma história que não parece se encaixar ali. Talvez se o autor tivesse deixado os clássicos de lado e focado em criar algo sem grandes inspirações, poderia ter ficado melhor. Já li outros livros de John Boyne e gosto bastante da escrita dele. Mas ela não funciona direito nesse livro. 

O que acabou me prendendo à trama, portanto, foi a vontade de entender o que estava acontecendo. Quando passei a encarar o livro como um mistério sobrenatural - sem esperar grandes coisas dele -, a leitura fluiu melhor. Existem tantos elementos e personagens com histórias à parte que fiquei me perguntando qual era o objetivo do autor e em qual daquelas linhas eu deveria focar a minha atenção. 

Além disso, a impressão que fica é a de que John Boyne nunca escreveu personagens femininas, pois são todas tão caricatas que revirei os olhos diversas vezes durante a leitura. Eliza, que está há uma semana de luto pelo pai, passa a viagem inteira até Norwich pensando em como o homem sentado próximo dela é bonito e como seria estar com ele. Então, ela desce do trem e é salva por outro homem, a quem também imagina de maneira romântica. E isso acontece durante o livro inteiro, com praticamente todos os homens a quem encontra. Eliza é escrita como uma mulher que só pensa em homens, cujas motivações para existir, trabalhar, cuidar das crianças da casa e desvendar o mistério da mansão são fracas. Conforme lia, me perguntava várias vezes quem, afinal, é Eliza Caine? 

O autor também parece ter escolhido a dedo um dos piores tropos da literatura gótica clássica: a do vilão estrangeiro, preferencialmente de países católicos ou com línguas derivadas do latim. Colocar como vilã o espírito de uma mulher espanhola, estrangeira naquele país, que supostamente enlouqueceu após ter filhos, é, no mínimo, problemático. Mais ainda quando averiguamos a explicação que o autor nos fornece: Santina tornou-se uma mulher louca, assassina e vingativa porque fora estuprada pelo pai e pelo tio durante a infância. E, para salientar que isso faz sentido, há diálogos inteiros nos quais personagens conversam sobre como uma mulher jamais poderia recuperar-se de um trauma desses. Não consigo nem começar a explicar o quão errada tal linha de pensamento é. 

"todos nós simplesmente nos acostumamos ao fato de haver uma louca morando em Gaudlin Hall."

Além disso, temos o tropo da mulher louca do sótão subvertido em algo que só posso definir como estranho. No entanto, ele é subvertido entre aspas, já que a própria Isabella acaba assumindo a posição estereotipada. E,  embora haja livros interessantes que contenham tal ideia, não sei se ela cabe mais em obras produzidas no século XXI - ou, ao menos, não da maneira como John Boyne o fez. 

O final é decepcionante em todos os níveis. Só consigo compará-lo ao final de qualquer temporada de Pretty Little Liars - o que não é uma comparação muito gentil. Parece que Boyne decidiu deixar um cliffanger ali - para quê, não sabemos. Mas, antes disso, já estava ruim. Não há muita lógica dentro das escolhas das personagens. Seus comportamentos não batem com o que nos foi apresentado durante toda a trama. É frustrante. 

O Irish Times apontou que a obra pode tratar-se de uma visão mais humorística do romance gótico, algo aos moldes de Jane Austen em A Abadia de Northanger. O raciocínio segue, dizendo que, justamente por isso, A casa assombrada pode ser mais acessível para jovens leitores do que os romances clássicos, servindo como porta de entrada. Mas não sei se acredito isso. Particularmente, acho que é mais fácil alguém, que nunca leu um clássico gótico na vida, pegar esse livro e fugir do gênero para sempre. 

Porém, há quem goste. A cada livro, seu leitor. 


2 Comentários

  1. Oi, Mia!
    Eu li esse livro e até que gostei (se não me engano, avaliei com 3 estrelas), mas não parei pra ver o que tinha de errado nessa história (ou pelo menos não me lembro).
    Das coisinhas que você comentou, eu senti essas ideias erradas sobre as mulheres em O ladrão do tempo, que também é desse autor. Você já leu? Agora pensando aqui, deu até medo de ler mais dele...
    Enfim, eu também não gostei do final, principalmente porque pra mim já estava tudo resolvido e o que aconteceu meio que levou a história pro mesmo ponto do início. Foi muito chato.

    (obrigada pelo comentário. ❤️ Acho que ainda vou me frustrar bastante até aceitar que o funcional é melhor pra mim, adoro sofrer. Rsrsrs beijos!)

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    1. Oi, Jana!

      Eu não li O ladrão do tempo, apenas O menino do pijama listrado e Uma escada para o céu, e gostei bastante de ambos - mas talvez seja porque nenhum deles possui personagens femininas no centro. Fiquei meio ressabiada de ler outras coisas do autor.

      Bjo!

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