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literatura & diarices

O talentoso Ripley, de Patricia Highsmith

The Mediterranean, de Nikolai Dubovskoy (1895)

Devo ter lido uns dois ou três noir até agora. Não é um gênero que me atrai, de uma forma geral, porque não sou muito uma pessoa de narrativas sobre crimes e assassinatos. De investigação, só gosto de Sherlock (a série da BBC; os livros nem tanto) e de Agatha Christie. Todo o mistério em torno do whodunnit geralmente me cansa, especialmente porque há um esforço grande para que as histórias sejam contadas da forma mais séria possível, com muito sofrimento e homens lutando por suas vidas com femme fatales e mistérios. Mas escolhemos ler um noir na leitura coletiva deste mês, no Querido Clássico, porque novembro é tradicionalmente o mês do noirvember, uma iniciativa que consiste em assistir e/ou ler obras do noir durante o mês. Eu não sou uma pessoa do noir, mas a Jess, que toca o site e o podcast comigo, é. Então, embarquei nessa e decidimos ler uma obra escrita por uma mulher, porque no noir existem muitos autores, mas poucas mulheres publicadas. Por isso, a escolhida foi O talentoso Ripley, da Patricia Highstmith

Assisti ao filme baseado no livro, de 1999, há alguns anos, e lembro de ter gostado bastante. Lembrava, portanto, de algumas coisas básicas sobre o livro: Tom Ripley, o personagem principal, se fazendo passar por amigo de Dickie Greenleaf, eles na Itália, muita tensão, um assassinato, roubo de identidade. Mas não lembrava que a tensão era, na verdade, sexual, que Tom Ripley é uma construção crítica à homofobia da época e que há uma atmosfera de melancolia por toda a história. 

Demorei o mês inteiro para ler o livro. Não porque seja ruim, de forma alguma, mas porque eu realmente ando lenta com as leituras. Li apenas um conto e esse livro durante novembro. E tudo bem, às vezes é bom fazer as coisas com mais calma. Mas o livro é excelente, embora eu o tenha lido bem devagarzinho. 

O que me impressionou foi que, embora Tom Ripley não seja uma pessoa exatamente boa, é difícil não compreendê-lo. Por mais que tentasse me lembrar de que ele faz escolhas erradas durante todo o caminho, e é até mesmo prejudicial para quem lida com ele, Tom é o tipo de pessoa que realmente precisava de uma rede de apoio. Ele não é uma boa pessoa, mas é totalmente compreensível ele ter se tornado quem se tornou. 

O que me levou a pensar algo óbvio, mas as obviedades também fazem parte da experiência de leitura - e, às vezes, são até mais chocantes porque certamente não as esperamos ali, nos encurralando entre uma página e outra. O talentoso Ripley me fez pensar em como todos estamos representando algum papel e somos, de uma maneira ou de outra, heróis em nossos próprios dramas. É fácil identificar-se com Tom, embora haja ali várias particularidades que não se aplicarão a todos os leitores, mas é difícil aceitar que talvez possamos ser os vilões nas vidas de outras pessoas. 

A gente conversou sobre a leitura (e sobre homofobia e noir) no podcast do Querido Clássico. Foi bem divertido, embora o tema seja pesado. 

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