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Passeando na Austenlândia

Recentemente, terminei a leitura de Meia-noite na Austenlândia, da Shannon Hale. Já havia lido o primeiro livro, Austenlândia, no início do ano, e amado demais. É uma farofa, mas é uma boa farofa. Tem tudo o que eu gosto: referências a clássicos, mulheres que gostam de ler e queriam entrar dentro das histórias dos livros, mistérios que realmente me fazem dar uma de detetive... É ótimo. 

Comecei a leitura porque Austenlândia é um dos meus filmes preferidos. Gosto de dizer que ele está na minha lista de filmes-conforto (ao lado de Crepúsculo e Casa Comigo?) porque essa é a definição que melhor se aplica. Não é um filme maravilhoso, não é uma grande obra-prima do cinema, mas é algo que me deixa feliz - e isso basta. Não gosto da ideia de que preciso gostar apenas de filmes profundos e inquestionavelmente perfeitos. Gosto do cinema como entretenimento, especialmente quando ele mistura clássicos com a realidade de agora. E Austenlândia possui justamente essa proposta. 

Austenlândia, o filme 

Lançado em 2013 e dirigido por Jerusha e Jared Hess, Austenlândia (Austenland, no original) é uma dessas produções que não atingiu o público daqui com muito burburinho, mas que entrou para o rol das adaptações de Orgulho e Preconceito, o livro mais famoso de Jane Austen. 

No filme, conhecemos Jane, uma mulher de trinta e poucos anos cuja vida amorosa não vai para a frente porque ela é obcecada pela ideia de um homem perfeito, tal qual Mr. Darcy (particularmente, eu não o considero um exemplo de homem, mas tudo bem, prossigamos). Jane é apaixonada pelos romances de Jane Austen e sonha em viver um amor que merecesse destaque numa das histórias da autora. É por isso que, assim que pode, ela vai para a Austenlândia, um lugar que funciona mais ou menos como uma pousada onde os hóspedes precisam se vestir de acordo com as regras do início do século XIX, assumindo um personagem que foi criado para adequar-se à sociedade Austeniana ali presente. Portanto, as roupas usadas são as da época, os costumes também, até mesmo a alimentação é baseada no cardápio de Londres por volta de 1815. Tudo é feito para que haja uma experiência de imersão dentro do local. 

Entretanto, ela percebe que mesmo o faz-de-conta não é perfeito e que ela não seria tratada como uma heroína Austeniana por não ser uma cliente rica - comprando o pacote básico, recebe-se apenas o básico. Os afetos que surgem parecem falsos e Jane simplesmente não sabe mais diferenciar a realidade da ficção. 


É um filme sem grandes construções de personagem, mas é realmente ótimo para assistir quando tudo o que se quer é mergulhar dentro de um livro da Jane Austen. 

Austenlândia, o livro 

Li o primeiro livro há alguns meses e foi realmente ótimo. Algumas pessoas vieram me perguntar se ele não é bobo demais. Bem, se por bobo você imaginar uma história despretensiosa, repleta de clichês, mas fofinha e divertida, então, sim, ele é bobo. Porém, isso não precisa ser necessariamente ruim. Embora eu seja muito mais uma pessoa do terror do que de outros gêneros, gosto de ler e assistir a obras mais leves e tranquilas. Não gosto de histórias de amor, mas Austenlândia não é sobre o amor - é sobre encontrar seu lugar no mundo. 

Ao contrário do filme, no livro, Jane não vai para a Austenlândia animada, tampouco gasta todas as suas economias para comprar o pacote básico apenas por uma chance de viver alguns dias dentro de uma história de Jane Austen. Ela ganha a viagem de uma tia e vai porque, bem, por que não? 

Sua tia sabia que Jane procurara por Mr. Darcy em cada um dos homens que conhecera. Ela tinha tudo de Orgulho e Preconceito e venerava a interpretação de Colin Firth do personagem principal. Mas aquela era uma obsessão que mais atrapalhava do que ajudava Jane. Foi por isso que sua tia pensou que ela teria uma experiência interessante na Austenlândia - e talvez percebesse que o Mr. Darcy não existe, nem ao menos funcionaria no mundo real. 

"É sério, uma mulher de 30 e poucos anos não deveria sonhar acordada com um personagem fictício de um mundo de 200 anos de idade a ponto de influenciar sua vida e seus relacionamentos muito reais e muito mais importantes. É claro que não deveria."


Austenlândia é definitivamente menos divertido do que o filme, mas é tão bom quanto. E, de certa maneira, é quase impossível não se identificar com a Jane e sua obsessão por personagens fictícios. Quem nunca quis viver dentro de um livro, afinal de contas? 


Meia-noite na Austenlândia, a continuação 

Meia-noite na Austenlândia me deixou feliz por mostrar uma trama que vai além da mocinha desiludida que se refugia no mundo de Jane Austen e acaba encontrando o amor. Primeiro que Charlotte, embora esteja desiludida, não é uma mocinha no sentido estrito da palavra. Ela ficou abalada com a traição e separação do marido, mas ela é uma mulher que se foca no trabalho e nos filhos, que tocou a vida pra frente e não ficou se lamentando ou procurando por alguém. Até teve alguns encontros, mas respeitou seu próprio tempo e não tentou se lançar em um relacionamento só para esquecer do ex-marido. Segundo que ela não vai para Austenlândia pensando que encontrará seu Mr. Darcy. Aliás, Orgulho e Preconceito mal é mencionado no livro. A grande inspiração é A Abadia de Northanger, um dos menos mencionados romances de Jane Austen - com o qual tenho questões, pois nele a autora escreveu uma série de obras que seriam "ridículas demais", o que causou a extinção da carreira de muitas mulheres, escritoras de gótico, na época. 

Em A Abadia de Northanger, Catherine Morland hospeda-se num lugar que, a seus olhos, possui um segredo. Ela, uma grande leitora de histórias góticas, não consegue deixar de ver ali um mistério assustador, com direito a assassinato e fantasma. No entanto, o que Jane Austen faz no romance é troça do gótico, que ela achava menor na literatura. É um livro divertido, embora eu não concorde com Austen nesse sentido. Mas, deixando de lado o ranço que senti ao descobrir suas intenções ao escrever o livro, ele é uma leitura realmente ótima. 

Meia-noite na Austenlândia se inspira em A Abadia de Northanger, mas não comete os mesmos erros. Se Charlotte acha que viu um corpo e que há um assassino entre eles, é porque há mesmo. Ser uma leitora de terror e gostar do gótico não faz com que uma mulher seja iludida ou tenha imaginação fértil - mas pode ajudar-lhe a ficar atenta aos sinais de que há alguém cometendo crimes dentro de uma bela propriedade antiga. O mundo quase perfeito da Austenlândia do primeiro livro toma contornos sombrios no segundo - e isso é maravilhoso. 

O que eu não gostei é que parece que a autora colocou coisas vergonhosas no livro, como Charlotte conversando com seus Pensamentos Profundos (assim, em maiúscula mesmo), algo meio Cinquenta Tons de Cinza (Anabelle e os diálogos com sua deusa interior). Ficou um pouco embaraçoso. Mas, como o que eu queria era apenas uma leitura leve e divertida, e não uma obra-prima da literatura contemporânea, simplesmente deixei pra lá esses detalhes e segui com o livro. 

Algo que me chamou atenção é que, quando uma mulher hospeda-se na Austenlândia, lhe é designado um dos atores da produção para desempenhar seu interesse amoroso. Ainda que nem todas as mulheres vão para lá com tal objetivo, é de praxe que um dos homens lhe faça a corte, tal qual num livro de Jane Austen. Mas o senhor Mallery, o personagem que deveria ser o par romântico de Charlotte, é um sujeito estranho. Alto, cabelos compridos amarrados num rabo-de-cavalo, um aspecto selvagem... E suas maneiras são intensas. Durante metade do livro, somos levados a crer que ele é um diamante a ser lapidado. No entanto, algo estava me deixando incomodada no perfil dele. Ele me lembrava muito Heathcliff, o anti-herói de O Morro dos Ventos Uivantes, romance de Emily Brontë. Qual não foi então a minha satisfação quando, algumas páginas depois, a narradora diz: 

"Ele é como aqueles antigos heróis, ou vilões, talvez, aqueles príncipes trágicos e Heathcliffs e Rochesters torturados."

Dá pra ver que a autora fez um belo trabalho de pesquisa em diversos clássicos para compor seus personagens. Meia-noite na Austenlândia, assim como seu predecessor, não é um livro perfeito, mas é uma ótima escolha para quem quer uma leitura leve e divertida que tenha a ver com clássicos, como aqueles escritos por Jane Austen, as irmãs Brontë e Agatha Christie. 

2 Comentários

  1. Adoro o filme Austenlândia! Na primeira vez vi sozinha, e logo no dia seguinte vi de novo com a minha irmã e a minha mãe. Quero rever de novo qualquer dia desses! Tem uma cena muito engraçada em que uma das personagens diz pro cara "e você morreu?" ou algo assim que eu acho muito engraçada kkkkk
    Li o livro no Unlimited, mas o filme realmente é mais divertido!

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  2. Adoro o filme Austenlândia! Quando descobri ele, vi duas vezes seguidas haha Tem uma parte que eu acho muito engraçada, quando uma das personagens diz "E você morreu?" Sério, sempre dou risada só de lembrar XD Li o livro pelo Unlimited, mas achei o filme definitivamente mais divertido, então acabei não dando uma chance para o segundo. Quem sabe um dia!

    Vanessa
    tristezinhascotidianas.blogspot.com

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