na cabeceira

literatura & diarices

Com sangue, de Stephen King

É engraçado como, no final de dezembro do ano passado, eu havia me programado para ler Com Sangue, livro de contos de Stephen King, antes do Ano-Novo. Acabei lendo outras coisas, mas iniciei a leitura do livro ainda no início de janeiro. Pensei que, por ser um livro de contos e por eu gostar tanto do autor, seria tranquilo lê-lo, que não demoraria nada. 

Corta para dois meses depois. 

Terminei agora a leitura do último conto de Com  Sangue. Também é engraçado dizer que esse livro me fez companhia durante muitas quedas de luz. Aqui no verão, sempre cai bastante a energia, e não foi diferente neste ano. Tivemos muitas noites sem luz - e eu, insone, aproveitava para ler. Curiosamente, foi esse o livro que me fez companhia nessas noites. Hoje não faltou luz, mas está trovejando e talvez falte. Decidi terminá-lo antes disso. 

Não sou uma pessoa de contos. Também é engraçado dizer isso (uma constante no texto, claramente), já que quando escrevo ficção, geralmente é em formato de contos. As únicas coisas que publiquei até hoje, fora críticas e reportagens, foram contos. Mas, no geral, sou uma pessoa de romances. Existe algo em contos que simplesmente não me atrai como leitora. Acho que gosto mesmo é de ficar numa só história, longa e bem trabalhada, por um bom tempo. 

O que é bobagem já que não é porque a história é curta que ela não seja boa ou bem trabalhada. Foi o caso dos contos presentes em Com Sangue. São quatro e são ótimos. O livro tem quase quatrocentas páginas e cada conto tem mais ou menos quase cem - sendo que um deles tem suas duzentas páginas. A matemática é estranha, mas bear with me. O importante é que o livro é bom. 

Publicado em 2020, o livro possui quatro contos inéditos do autor. O primeiro se chama O telefone do sr. Harrison e acho que é uma boa abertura para um livro de contos. Naquela narrativa calma de Stephen King, que vai indo muito devagar em sua ambientação até atingir o clímax, conhecemos Craig, um jovem que começa a história já adulto, lembrando do passado. Nesse passado, em meados dos anos 2000, ele era um menino pago para ler livros para seu vizinho, o sr. Harrison, um velhinho que morava naquela rua e era muito solitário. Leitura vai, leitura vem, o vínculo entre eles acaba se estreitando, o que leva a ocorrências estranhas no futuro de Craig. 

Contudo, embora o conto seja sobre essa dinâmica entre o menino e o senhor, ele também fala sobre bullying, um tema bem comum nas obras de Stephen King, corrupção, injustiça e tecnologia. O último ponto é o que mais me chamou a atenção. É bem interessante como o autor consegue construir o terror mediante o crescente tecnológico. Lembrando que a ambientação da história é feita na época em que os celulares, e a rede móvel de internet, estavam começando a dar as caras (pelo menos, lá nos Estados Unidos). Por isso mesmo, é estranho pensar nas reflexões das personagens a respeito daquela tecnologia e na maneira como a sociedade é organizada hoje em dia. Até mesmo sobre paywalls o conto fala. É realmente muito interessante. 

Quanto a história, ela é boa, mesmo. Não é nada que já não se tenha visto por aí, mas é bem construída e possui seus momentos de tensão. Particularmente, fiquei um pouco decepcionada com o final, pois consegui adivinhá-lo e o achei bem óbvio. Para mim, teria sido mais interessante se o autor tivesse tomado outra direção. Porém, isso não diminui o conto, que é bem escrito e redondinho - é apenas uma opinião pessoal mesmo. 

Em A Vida de Chuck, há muitas histórias dentro de uma história. Eu estava empolgada lendo sobre o fim do mundo, sobre o mistério de Chuck, o fim da internet, do meio ambiente, de tudo... E então veio o plot twist - que não é ruim, mas é súbito. Gosto muito da construção de Chuck. A forma como Stephen King o apresenta é interessante, especialmente porque ele é uma pessoa comum vivendo uma situação horrível, porém comum. 

Gostei mais ainda da parte centrada na infância de Chuck, com seus avós e a casa vitoriana. A ideia de fantasmas do Natal futuro é maravilhosa - e gostaria que ele a tivesse desenvolvido mais. A sensação que ficou é que Stephen King misturou dois contos em um. Eu teria amado ambos separadamente, mas juntos ficou apenas confuso e esquisito. Não é um conto ruim, mas poderia ter sido melhor. Poderia ter sido dois contos. 

"O mundo está descendo pelo ralo e tudo que a gente consegue dizer é 'que droga'. Acho que pode ser que a gente também esteja descendo pelo ralo."

O maior conto do livro é o mesmo que dá título à obra: Com Sangue. Fiquei um bom tempo presa na primeira metade dele. Parecia que não ia para a frente. Até que, numa dessas faltas de luz, simplesmente foi. Preciso dizer que não esperava que o enredo desse a guinada que deu. Talvez por não conhecer a personagem Holly, a protagonista, que aparentemente é figura de uma trilogia de Stephen King - que ainda não li. Pelo que entendi, a ideia do monstro presente no conto é semelhante a que acontece num desses livros da trilogia. Terei que ler para entender melhor - e também porque adorei a construção dela, assim como fiquei bem curiosa para saber mais sobre o universo do monstro (que seguirei chamando de monstro para não dar spoilers a leitores desavisados). 

O último conto, Rato, também me levou muito tempo para ser lido. Não é culpa dele: não li quase nada em fevereiro, mas tinha lido uma boa parte dele quando bateu o sono e só voltei a lê-lo um bom tempo depois. Embora eu sinta um certo ranço por histórias de escritores atormentados, gostei bastante do que Stephen King fez ali. 

A história parece que será uma coisa, mas acaba sendo outra. O que começa dividindo semelhanças com O Iluminado acaba se transformando em um conto-de-fadas macabro. Um professor que passou a vida inteira tentando escrever um livro e quase enlouquecendo no processo tem uma ideia que precisa levar adiante. Para isso, ele deixa a família e vai sozinho até o antigo chalé para escrever, isolado no canto do canto do nada. Mas coisas acontecem. É só isso que direi. 

Fiquei surpresa com o final do conto. É realmente bom e inesperado - o que me deixa feliz em vários níveis. Acho que uma das coisas que mais me atrapalha em contos, no geral, é como acabo sempre adivinhando o desfecho. Gosto de ser surpreendida, especialmente quando a história é bem construída. 

Meus contos preferidos de Com Sangue, em ordem:

  1. Com Sangue
  2. O telefone do sr. Harrigan
  3. Rato
  4. A vida de Chuck

1 Comentários

  1. Eu não sou super fã do Stephen King, mas gostei bastante de outro livro de contos dele, o Escuridão Total Sem Estrelas ~ por isso, cheguei a cogitar a leitura de Com Sangue. Ainda estou pensando na possibilidade, mas, ao mesmo tempo, tenho TANTOS livros ainda não lidos por aqui... Adorei a resenha. :)

    ResponderExcluir

Postar um comentário