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Bela Vingança para quem?

Atenção: este texto contém spoilers do filme e trata de temais sensíveis, tais como estupro e depressão

Antes de mais nada eu preciso dizer que sou uma sobrevivente de estupro. Já contei essa história algumas vezes, mas é necessário apontar isso neste texto. Quando eu tinha 13 anos, meu tio dormia lá em casa para ajudar a cuidar do local porque meu pai trabalhava à noite, meu irmão havia casado e minha mãe tomava medicações fortes para um câncer e não veria nada caso acontecesse algo. Eu, insone e pré-adolescente, ficava sozinha com o meu tio, que aproveitou todas as noites durante meses para me estuprar de diversas maneiras. A punição para ele nunca veio, mas para mim, sim. Além de todo o trauma que modificou para sempre a minha personalidade e a forma como enxergo o mundo, quando finalmente consegui reunir voz para contar a alguém, o que recebi foi não apenas incredulidade como acusações de que eu o havia seduzido. Eu, uma menina de 13 anos que nunca havia nem ao menos segurado na mão de um rapaz antes. 

Hoje tenho mais do que o dobro da idade que tinha quando os estupros aconteceram e ainda me pego várias vezes perdida em pensamentos, em estado catatônico, revivendo aqueles terríveis momentos, os toques, os cheiros, as sensações - e, muitas vezes, desejando simplesmente morrer para não precisar existir dentro de mim. Nem preciso dizer que esse trauma afetou todos os meus relacionamentos, amorosos ou não, e me fez desistir de muitas coisas, como estudos, lugares e pessoas, simplesmente porque eu não conseguia lidar e não podia explicar sem arriscar ser chamada de louca, vadia ou coisas piores. A vida de toda mulher é difícil, mas há alguns fardos que realmente nos arrastam para um lugar sombrio e do qual não podemos escapar. 

Digo tudo isso porque acredito que o nosso olhar crítico é intrinsecamente ligado às nossas experiências. Claro, é possível analisar uma obra sob um viés técnico, sendo imparcial, mas os sentimentos que a arte nos desperta são resultados da nossa visão de mundo, da forma como nos relacionamos com os temas abordados. Nem sempre os entendemos, mas considero interessante explanar os motivos que me levaram a essa ou aquela conclusão quando os tenho tão claros perante mim. E esse é o caso da minha reação a Bela Vingança, ou Promising Young Woman, no original. 

O longa, dirigido e roteirizado por Emerald Fennell, foi indicado a diversas categorias ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Original. Isso claramente tem um significado - para além da propaganda feita por trás dos filmes escolhidos, que raramente não possuem algum grande apoio por trás. Mas também diz algo sobre as mensagens feministas que são aceitas dentro de Hollywood. 

Ano passado, um dos indicados foi O Escândalo, ou Bombshell, no original, filme que fala sobre o movimento #metoo dentro da mídia jornalística estadunidense a partir de um processo contra o presidente da Fox News que assediava e estuprava mulheres - geralmente suas subordinadas. A princípio, parece um filme feminista e empoderador. Todavia, ele faz um desserviço, sendo um filme sobre estupro de mulheres contado por homens. 

Neste ano, temos Bela Vingança, que promete subverter o subgênero rape revenge. E assim o parece, ao menos no início do filme. Suas tomadas, que raramente sexualizam o corpo feminino, mas mostram toda a misoginia masculina, são animadoras. Cassandra (Carey Mulligan) sai por aí se fingindo de bêbada enquanto dá lições em homens que tentam aproveitar-se dela. Confesso que essa premissa, na qual uma jovem se finge de bêbada para ver se o homem em questão se aproveitará dela e, quando ele o faz, levanta-se, dá um discurso do tipo "nunca mais faça isso" e vai embora é algo que desafia a minha suspenção da descrença muito mais do que qualquer filme de terror com demônios e afins. Porque sabemos qual seria o destino de uma mulher que fizesse isso. Não é como se homens fossem as criaturas mais amáveis do mundo - especialmente aqueles que já demonstraram a inclinação para o abuso. Mas tudo bem, é uma obra de ficção, segue o baile. 

O problema está durante o resto do filme. Quisera eu que Cassie realmente matasse os homens ao invés de lhes dar lições de moral. Poderia ser problemático, mas o seria menos do que os rumos tomados na história se mostraram. Desde o início, percebemos que há algo de errado com ela. Não sabemos o que aconteceu, mas com certeza ela sofreu um grande trauma de ordem sexual. Ela é arredia, possui um olhar permanentemente alerta, defensivo. Sua postura corporal nos mostra que ela está sempre a postos para sair correndo se for preciso. Todas as suas roupas em tons pastel, cabelo com franja e babyliss podem enganar, mas basta olhar para o rosto de Carey Mulligan para perceber que aquela é uma mulher que passou por muito sofrimento. Aquela é uma mulher com uma ideia fixa, com algo de que não consegue se libertar. 

Logo descobrimos que sua melhor amiga, Nina, morreu. Nina é apenas uma lembrança, não aparece senão em poucas e rápidas tomadas de fotografias, onde sempre está junto de Cassie, se divertindo. Mas ela não tem voz, olhar ou corpo. Nina está morta. A única pessoa que parece ligar para isso é Cassie, que abandonou a faculdade junto da amiga quando esta foi estuprada e ninguém ligou, ninguém acreditou, ninguém se importou. Um processo, ameaças e humilhações mais tarde, Nina morreu. É dado a entender que, por consequência de uma depressão causada pelos eventos de estupro, perseguição e humilhação, ela suicidou-se. Mas não sabemos ao certo porque ninguém quer conversar com Cassie sobre isso e é o olhar dela que nos guia durante o filme. 

Após um ex-colega de faculdade - a mesma faculdade de medicina que ela abandonou após o que aconteceu com sua amiga - encontrá-la acidentalmente em seu trabalho na cafeteria, eles engatam um relacionamento. Cassie demora para confiar nele, mas decide, por fim, colocar um ponto final àquela tentativa de fazer algo a respeito do que aconteceu com sua amiga, de vingar-se, de ser uma espécie de justiceira. Ela decide viver a sua vida. E é nesse momento que descobre, por causa de um vídeo do estupro de que ela não tinha conhecimento até então, que Ryan, seu namorado, era um dos homens presentes durante o abuso. 

É então que o filme desanda de vez. Não que estivesse muito bom até ali, mas uma narrativa de uma mulher traumatizada que aos poucos conseguia lidar com luto e a raiva pela injustiça e passar a confiar na humanidade novamente, retomando sua vida, o contato com a família e em um relacionamento feliz e saudável seria muito melhor, muito, muito melhor do que o que realmente acontece. Porque o que acontece é que ela morre. 

Para se vingar. 

Ao descobrir o vídeo, Cassie chantageia o namorado para que ele lhe dê o endereço da despedida de solteiro do homem que estuprou sua amiga, Al. Ela se prepara, coloca uma fantasia de enfermeira e vai até lá oferecer seus serviços como stripper num plano ao mesmo tempo idiota e infantil. Duvido que qualquer mulher que tenha sido estuprada ou ame alguém que foi não tenha fantasiado um dia em armar uma grande vingança, ir até o estuprador, fazê-lo confessar e pagar pelo que fez. E, ainda que existam problemáticas nisso, teria sido infinitamente melhor se o filme tivesse acabado com ela segurando uma faca ensanguentada com o sangue de Al do que da forma como acabou. 

Ele a mata. Seu amigo ajuda a acobertar. Eles queimam o corpo dela numa fogueira gigantesca para esconder qualquer rastro. O casamento de Al com sua noiva acontece, o ex-namorado de uma Cassandra desaparecida cuja família está procurando é um dos convidados, mesmo sabendo que ela provavelmente está morta. Tudo parece bem no reino dos homens ricos e brancos. Até que um carro de polícia chega e ficamos sabendo que Cassie deixou mensagens programadas para algumas pessoas, avisando onde iria e o que provavelmente teria acontecido com ela caso estivessem recebendo aquelas mensagens. Al é preso, Ryan recebe as mensagens de texto de Cassie e o filme termina com um emoticon de uma carinha piscando na derradeira mensagem dela para ele. Uma mulher morta, porém feliz. Será? 

Eu não sei quantas vezes terei que bater na tecla do "estupro não é recurso narrativo". Mas também não sei quantas vezes terei que dizer que projetos encabeçados por mulheres nem sempre significam projetos feministas. Mulan (o live action) é exemplo disso e, agora, Bela Vingança, que tem mulheres por trás das câmeras nos dizendo que a melhor forma de se vingar de uma sociedade patriarcal que ampara homens abusadores é procurando a morte. Uma mulher morta vale mais do que uma sobrevivente. 

Como mulher, me sinto preocupada com esse tipo de pensamento, especialmente porque esse é um filme que tem tido muita visibilidade e aplausos dentro da crítica, muito disso por conta de suas indicações a prêmios como o Oscar. Como sobrevivente de estupro, me sinto ultrajada e na obrigação moral de vir aqui dizer que isso tudo está errado. Essa é uma mensagem perigosa, dolorosa e antifeminista. 

Conversando com outras sobreviventes, descobri que infelizmente o desejo pela morte é um pensamento que atormenta a muitas de nós. Mas aí a colocar isso num filme que trata justamente sobre estupro e sobrevivência de maneira a nos mostrar que mulheres só conseguirão vingança morrendo é muito, muito errado. 

Cassie parece muito confiante e perigosa no início do filme, mas a única violência que perpetra contra os abusadores é lhes fazer pensar. Isso não faz o menor sentido. Tampouco o faz que a única violência real de vingança seja a morte horrorosa de Cassie, sufocada por Al. Que tudo isso tenha sido planejado por ela faz ainda menos sentido. Além de ser antifeminista e perigoso, especialmente para sobreviventes de estupro mais psicologicamente vulneráveis, também é mal escrito. Ele nos é vendido como um filme feminista que subverte o subgênero rape revenge, mas é apenas um filme com duas mulheres mortas por causa de homens brancos, ricos e abusadores

A quem esse filme atende? Aos homens, que sabem ter uma rede de amparo entre seus amigos e que, mesmo quando interrogados pela polícia, levam tapinhas nas costas, pois ninguém quer prejudicar um homem branco e rico? Ao feminismo liberal, que ama narrativas de mulheres tão empoderadas a pronto de sacrificarem a própria vida em nome de uma vingança mal arquitetada e que não vinga ninguém? Ou às mulheres que sofrem violência sexual todos os dias? Deixo essa pergunta em aberto. Acho que a resposta não é difícil de encontrar. 

*e não, a trilha sonora não é boa por um simples motivo: as músicas são ótimas, mas, com exceção de toxic, nenhuma se encaixa realmente em momento algum. não faz sentido. esse filme é frustrante de muitas maneiras e conseguiu desperdiçar uma trilha que poderia ter sido excelente.

1 Comentários

  1. Oi, Mia.
    A cada parágrafo eu me sentia mais horrorizada com tal filme... O tipo de conteúdo dispensável, principalmente pela falta de respeito com um assunto tão delicado. Nem imagino como foi pra você, tendo você mesma vivenciado essa experiência tão ruim...
    Beijos e se cuide. 😚

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