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literatura & diarices

Uma vez não conta. Uma vez é nunca.


Em A insustentável leveza do ser, Milan Kundera escreve: 

"Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.

Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca."

Penso muito nisso. 

Com alguma frequência eu esqueço que já estudei música e estive numa banda. É bizarro como algumas coisas se perdem na mente, especialmente quando mudamos de rumo. Música era tudo para mim durante um bom tempo e eu deixei isso de lado forçosamente porque decidi que não queria ser aquela pessoa. Foi estranho abandonar uma identidade que já estava tão alicerçada, mas, ao mesmo tempo, a sensação de liberdade que isso me deu até hoje me deixa feliz, ainda mais porque sei que existe sempre a possibilidade da mudança. Nós não precisamos ser as pessoas que somos agora para todo o sempre. Isso é bom. 

Faz mais ou menos um mês que recebi uma carta de um rapaz finlandês. Participo de uma comunidade de pessoas que gosta de escrever cartas chamada Slowly. É um aplicativo que seleciona, por ordem de interesse e língua, pessoas do mundo todo com quem você pode trocar cartas. Eu amo fazer isso e já conheci algumas pessoas muito interessantes por lá. Mas esse rapaz finlandês me perguntou quem é esta Mia, a Mia de agora, a Mia que está conversando com ele. Qual é a narrativa dela? 

Essa é uma pergunta e tanto. 

É difícil traçar uma linha que me leve do ponto onde deixei de ser a Mia da banda até o agora, onde sou a Mia que analisa livros para editoras. Sei que tem muita coisa que passa entre um ponto e outro, mas o que isso tudo fez comigo é difícil de determinar. Existem anos que são meio nhé e existem aqueles pelos quais não passamos incólumes. 2020 certamente foi um deles e este 2021 está se provando ser da mesma substância. E embora seja certo que eu tenha mudado, é difícil definir quem eu sou neste momento, como tudo isso me afetou e qual narrativa estou vivendo - até porque eu estou vivenciando tudo isso ainda. Como olhar para o agora e ver o todo quando se está ainda a caminho de algo? Só conseguimos enxergar essas trajetórias pessoais depois de um tempo acabadas. Acho que o fato de não enxergar com clareza o que isso significa para mim, quem eu sou e qual é a minha narrativa indica que a história atual ainda está em andamento. E tudo bem. Mas isso também explica por que me sinto como a cobrinha no jogo da cobrinha, com movimentos limitados. Você vai para lá e para cá, mas está sempre no mesmo quadrado. É uma trajetória que venho explorando há um bom tempo, seja ela qual for, mas é difícil defini-la. 

Às vezes, eu só preciso de um meio do mato metafórico. 

Lembro da última vez em que me senti verdadeiramente feliz. Estávamos voltando de viagem, era início de janeiro de 2020, e paramos para almoçar num restaurante na beira da estrada. Havíamos passado por vários no caminho, mas eu não tinha sentido o ~~feeling com nenhum deles. E eu preciso sentir algo na energia do local que me atraia para ele. Já estávamos na estrada há algumas horas quando vi um restaurante escondido no meio do mato - literalmente. Havia um grande gramado com muita vegetação, árvores, moitas que cobriam a entrada do lugar e, ao fundo, um restaurantezinho pacato e simples. Disse para o Vinicius encostar porque almoçaríamos lá. Foi perfeito. 

O local era lindo. Apesar da fachada escondida, o que poderia parecer estranho, tudo era muito arrumadinho lá dentro. Foi como entrar numa casa de vó, mas uma que vendesse meu prato favorito e que tivesse Netflix no menu. Sentamos numa mesa bem no canto, pedimos uma Coca-Cola e um prato com fritas, bife e arroz. Foi tranquilo. A comida era boa, estávamos cercados por árvores e vegetação diversa. Não havia nada por perto além da estrada e do silêncio da natureza. Eu me senti verdadeiramente feliz. Naquele momento, não existia nem um pingo de ansiedade ou de nada do tipo que atrapalhasse a minha felicidade. Foi uma sensação de pertencimento. 

Cresci em restaurantes. Meus pais sempre tiveram restaurante/lancheria, então o ambiente me é familiar. Numa vida alternativa, largo tudo e vou para o meio do mato, abro um restaurantezinho e vivo lá, cuidando das minhas coisas e lendo meus livros sentada debaixo de uma árvore. É um dos cenários perfeitos para mim. O anonimato de uma vida simples. Estar rodeada por boas comidas, natureza e tranquilidade. Mas não é a vida que escolhi. 

Eu poderia tê-la escolhido. Teria sido simples, dada a minha família. Mas acabei indo por outro caminho e cá estou, jornalista, revisora, escritora. Não sei se foi o melhor caminho ou se outro teria sido melhor. Mas é o meu. É o que escolhi. É claro que, na minha cabeça, a vida na qual eu sou dona de um restaurantezinho no meio do nada é muito bonita e feliz, mas ela é uma idealização, um lugar especial que criei na minha mente onde todos os meus problemas não existem. Não é real. Não há como viver todas as possibilidades para só então escolher uma. 

Porém, isso é possível em A biblioteca da meia-noite (The midnight library no original), livro escrito por Matt Haig. Nora Seed chega a seu limite quando, após ser demitida do trabalho, seu gato é encontrado morto na rua. Lidando com questões de saúde mental há muito tempo e não encontrando mais motivos para continuar tentando, ela decide suicidar-se. Para tal, deixa um recado, toma alguns comprimidos e... acorda numa biblioteca. Lá, ela é recebida pela bibliotecária de sua antiga escola, que lhe explica as regras do local: a biblioteca existe enquanto ela, Nora, existir. Ela está entre a vida e a morte e, entre ambas, há uma biblioteca de possibilidades. Todas as vidas possíveis de Nora estão escritas nos inúmeros livros existentes lá. E o grande livro dos arrependimentos é o guia para encontrar quais vidas Nora gostaria de viver enquanto o relógio marcar meia-noite. 

A cada arrependimento que escolhe, Nora é capaz de vivenciar uma vida num universo alternativo. A teoria dos multiversos está presente no livro, que mostra como cada escolha abre um leque de possibilidades e cria uma versão nossa. A Nora que escolheu continuar com a natação na adolescência, agora é uma campeã olímpica que dá palestras. Aquela que não abandonou a banda que tinha com o irmão está em São Paulo, num show gigantesco, e possui milhões de fãs. A felicidade, entretanto, é algo tênue, e Nora descobre que vidas grandiosas aos olhos do público nem sempre significam vidas felizes ou satisfatórias. Às vezes, a felicidade está no que é simples e tranquilo. 

Uma das mais felizes é uma em que ela é uma cientista no Ártico. Isolada de todos, correndo perigo ao enfrentar um urso polar, pesquisando o aquecimento global, Nora se sente verdadeiramente feliz. Não se engane, é tudo péssimo: o frio é realmente frio, do tipo que congela e não há o que fazer, ninguém da tripulação se conhece direito, o trabalho é difícil, as condições, péssimas, e, embora importante, não é como se o mundo ligasse muito para o clima. Não há reconhecimento. O anonimato dessa vida é tangível. Mas ela é repleta de uma sensação de pertencimento, de estar fazendo algo importante. E isso conta muito. 

Mas Nora segue em frente para a próxima vida, mesmo estando feliz naquela. 

Não é muito diferente em essência do que a personagem de Zoë Kravitz faz em High Fidelity. Assisti a série inteira em uma noite e foi uma experiência repleta de sentimentos. Eu certamente não imaginei que sentiria algo com a série, sequer pensei que fosse gostar dela a princípio, mas acabei me envolvendo com a história porque é aquilo: pessoas se autossabotando. 

Gosto de pensar nessa autossabotagem não como uma espécie de síndrome do impostor. Não é como se fosse um "eu não mereço isso", mas sim um "eu mereço muito mais do que isso". Mas não é bonito dizer que se tem ideias de grandeza, então a gente coloca tudo na conta da síndrome do impostor (que eu considero um conceito bem arrogante, para falar a verdade, mas prossigamos). Contudo, existe um limiar entre o sentir-se superior àquela vida que se está levando e o medo de ir atrás do que se quer. É confuso, especialmente porque, com o passar do tempo, é fácil deixar-se levar pela ideia de sempre merecer algo melhor. E se o melhor que você vai ter for o que você já tem? 

E se a sua melhor versão for a de hoje? 

A própria Sabina, de A insustentável leveza do ser, se encaixa bem nisso. Mas ela chama o que faz de ~~traição. Ela trai seus próprios desejos e expectativas, sempre ansiosa pela próxima traição da lista, que lhe fará sentir aquela sensação de renovação novamente. 

Uma vez não conta. Uma vez é nunca. 

Mas, se só existe esta vida, o que se faz com isso? Se conforma, se vive, se muda constantemente? Vai jogar bejeweled para passar o tempo? São questões. Porém, olhar para essas personagens (curiosamente, sempre mulheres) que seguem em busca de si e de quem desejam ser é algo bom. Se uma vez é nunca, vamos fazer esse vazio valer a pena. 

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