na cabeceira

literatura & diarices

Modern Love: histórias reais de amor em suas várias formas


Em meados de 2019, o Prime Video lançou em seu streaming uma série cujos oito episódios derivam de uma coluna no The New York Times. A coluna em questão existe há algumas décadas e, ao longo dos anos, abriu espaço para que leitores do jornal contassem suas histórias de amor. Longe de ter somente relatos românticos, Modern Love tornou-se um ponto reconhecível num dos maiores jornais do mundo, um ponto onde crônicas sobre as diversas faces do amor poderiam ser lidas, sentidas e compreendidas por milhares de pessoas. No início do ano passado, a editora Rocco publicou uma coletânea das melhores crônicas de Modern Love, organizadas por Daniel Jones. 

Modern Love: Histórias Reais de Amor, Perda e Redenção cumpre sua promessa ao nos apresentar uma variada seleção de crônicas extremamente pessoais que, longe de ser perfeitas, são reais, e falam sobre sentimentos e situações verdadeiras envolvendo diversos tipos de amor. Em geral assinadas por escritores ou jornalistas, os casos lá contados são bem redigidos e espirituosos, mesmo quando são tristes. E há muitos que fazem jus à tristeza associada ao amor. Amar, afinal de contas, é também precisar estar pronto para perder, e as vozes das dezenas de pessoas que escreveram para a coluna mostram bem isso. 

Para pensarmos no amor moderno, precisamos pensar em seu contraponto, que é o amor antigo ou amor de forma clássica. O que é esse amor e como ele existe? Antigamente, ele florescia à base de cortejo e nem sempre experienciava a liberdade da escolha e do arrependimento que ocorre naturalmente, enquanto as pessoas vão de um relacionamento para outro. As questões afetivas eram mais limitadas pela organização social. É interessante perceber isso porque sem tal reflexão não poderemos compreender o que torna as crônicas de Modern Love únicas. Elas são diferentes entre si, e algumas até podem ser detestáveis, mas todas falam sobre uma liberdade no amor que não existia há cerca de um século. Então, é interessante ter esse novo amor registrado em crônicas pelas vozes autorais das pessoas que vivem ou viveram daquela maneira. Ainda mais quando consideramos que tais crônicas foram publicadas em um dos maiores jornais do mundo e que seu registro, agora eternizado em páginas de um livro, será permanente, e ajudará as pessoas do futuro a compreender como ocorreu essa mudança do amor antigo, do amor clássico, para o amor moderno, que conhecemos tão bem hoje. 

É satisfatório ter uma obra — tanto a série quanto o livro — que consiga dialogar com a realidade do amor no século XXI. Embora sejam tempos líquidos, tal estado da matéria não precisa ser necessariamente ruim: a liquidez se molda a qualquer recipiente, assim como nós nos adaptamos a situações e pessoas. A vida é corrida, afinal de contas, e a ideia de ficar com alguém para o resto de nossos dias, ainda que romântica, não corrobora a realidade que vivemos atualmente. E isso não deveria ser encarado como uma coisa ruim. 

O livro é dividido em quatro partes: “Em Algum Lugar lá Fora”, “Acho que Amo Você”, “Segurando Firme nas Curvas” e “Assuntos de Família”. Ainda que tais divisões não sejam restritas, em termos de conter apenas histórias sobre amores perdidos ou sobre aqueles não-românticos, existe uma certa preocupação em separar os temas principais de cada uma dentro dos tópicos. A primeira parte, por exemplo, fala sobre amores de uma noite, relacionamentos não duradouros etc. A segunda é sobre aquelas histórias que poderiam facilmente enquadrar-se em “amor verdadeiro” (embora esse seja um termo que não pode ser aplicado de forma leviana e está mais atrelado ao amor clássico do que ao moderno). Contudo, embora as duas primeiras tratem de amores sexuais e românticos, as outras duas são mais interessantes por reunirem histórias sobre outros tipos de amor. “Segurando Firme nas Curvas” possui algo de romântico mas, em suma, é sobre as dificuldades que as pessoas enfrentaram em seus relacionamentos interpessoais. Já a última parte consiste na vida familiar, e o foco não diz respeito ao cônjuge. A organização das crônicas é ótima para quem quer ler um tipo de história (familiares, por exemplo) ao invés de outra. Tratando-se de um livro com as melhores crônicas da coluna do jornal, publicadas durante anos, é normal que nem toda história agrade ao leitor. 

As histórias contadas na primeira parte de Modern Love poderiam, facilmente, figurar entre as músicas da Lorde. Elas se passam entre pessoas que se encontram por acidente e iniciam um relacionamento sexual logo afetado por sentimentos românticos que, por um motivo ou outro, não podem ser concretizados, ou entre pessoas que sentem-se jovens e perdidas e estão tentando encontrar seu lugar no mundo — e no amor. De maneira alguma são histórias de amor duradouro, eterno ou compromissado, mas, nem por isso, deixam de ser histórias de amor. A definição do termo “amor” é mais ampla do que aquela que aprendemos nas comédias românticas dos anos noventa, afinal de contas. O sentimento pode incluir grandes gestos e uma trajetória conflitante que leva ao ápice da felicidade conjugal, mas nem sempre é assim — me atrevo a dizer que quase nunca é dessa maneira. Nem por isso as experiências que vivemos com outras pessoas devem ser jogadas para escanteio e, justamente a partir desse ponto, Modern Love acerta ao abrir um livro sobre o amor no século XXI com tais histórias de descoberta e rejeição. Elas também existem e nos constroem. 

“A vulnerabilidade é uma característica que inspira todas as histórias de amor, e pode assumir várias formas. Mas, em todos os casos, vulnerabilidade significa nos expormos à possibilidade da perda, mas também — e isso é crucial — à possibilidade de criação de um vínculo. Não se pode ter um sem o outro.” 

Quem assistiu a série do Prime Video, também chamada Modern Love, reconhecerá facilmente duas das histórias presentes na primeira parte do livro: “No hospital, um interlúdio de clareza” e “Ora, ele parecia um pai. Era só um jantar, certo?”. Durante a primeira temporada da série, fomos apresentados a oito histórias de amor moderno originalmente contadas na coluna do The New York Times. Duas delas são sobre os amores que poderiam ser, mas não foram — e, coincidentemente ou não, são as mais divertidas da antologia. Na primeira, um jovem é socorrido pela mulher com quem estava começando a sair quando, antes de transarem, ele acaba se machucando e abrindo um talho no braço, necessitando ir para o hospital. Embora a noite tenha sido intensa e o relacionamento parecesse ter avançado, logo eles terminaram e nunca mais se viram. Já a segunda história é uma das mais problemáticas do livro e da série, embora tenha seu sentido e trate de uma realidade vivida pela pessoa que a contou. Uma jovem estudante universitária desenvolve uma obsessão por um professor na casa dos sessenta anos porque ele lhe lembra seu pai. Nisso, ela aceita jantar na casa dele e, ao perceber que, de fato, o homem está tentando seduzi-la, trata de ir logo embora, deixando pendente uma história que nunca aconteceu e, de certa forma, superando a procura pela figura paterna. Ambas histórias são originalmente diferentes daquelas que vemos na série. Provavelmente tentando formular uma narrativa mais atrativa, a série vai para além do que é contado nelas e dá “finais felizes” a seus personagens. Particularmente, gosto do que é feito na série, mas gostei mais ainda dessas histórias no livro pois, justamente por não terminarem com um final feliz, refletem perfeitamente a efemeridade dos relacionamentos — e como isso não precisa ser algo ruim, é apenas o que é. 

Aliás, a modificação das histórias contadas no livro é algo presente em todos os episódios da série, que possuem uma versão hollywoodiana para o recorte temporal e sentimental que as pessoas apresentaram ao jornal. Não existe problema nisso, já que adaptações não necessitam ser fiéis ao material original. É preciso sempre lembrar, nesses casos, que mídias diferentes possuem públicos e narrativas diferentes. Mas, de certa forma, fiquei um pouco melancólica ao perceber como poderíamos ter tido episódios que conversassem mais com Fleabag do que com Um Lugar Chamado Notting Hill

Uma das minhas histórias preferidas da série encontra-se na segunda parte do livro, “Acho que Amo Você”. Dando início a seção, “Quando o cupido é uma jornalista intrometida” nos conta como uma jornalista, ao entrevistar um jovem rapaz que havia projetado um aplicativo para relacionamentos cujo algoritmo dera tão certo que ela, recém-divorciada, havia encontrado alguém perfeitamente compatível, descobre que, por trás do sucesso do aplicativo que auxiliava pessoas a acharem o amor, existia um coração partido. A matéria que escreveria tornou-se um ensaio sobre esse homem que perdeu o amor e gostaria de reencontrá-lo. Por meio do que escreveu, a jornalista teve uma participação importante na reconciliação do jovem programador e sua ex. A história, no livro, é bem simples e tocante, enquanto na série estende-se por mais tempo e dá ares de comédia romântica a toda a trajetória dos casais — tanto do programador quanto da jornalista, que também havia perdido alguém que amara e com quem nunca deu certo. Essa é uma crônica de amor em um sentido mais tradicional, porém as melhores são aquelas que vão além dele. 

“Aceite-me como eu sou, não importa quem eu seja” é uma das mais impactantes histórias do livro e da série. O relato de Terri Cheney, uma mulher bipolar que, durante anos, recebeu tratamento inadequado e não conseguia desempenhar suas atividades de forma satisfatória, o que afetava diretamente sua vida amorosa, é delicada, bonita e real. Raramente vemos histórias sobre mulheres neuroatípicas representadas de forma verdadeira, sem os clichês ridículos da mulher-louca. As alterações nela foram mínimas na adaptação televisiva, talvez porque ela seja completa em si mesma e eles tivessem medo de estragar a complexidade de uma mulher bipolar. Fico feliz que não tenham mexido na estrutura escrita pela autora, que vivenciou anos de sofrimento até conseguir entender melhor seu diagnóstico e encontrar tratamento adequado para a bipolaridade. Para ela, o amor presente no centro da história não é o romântico. Embora a falta dele represente um papel importante, o foco é na relação dela consigo mesma. Dar voz a uma pessoa bipolar é importante, muito mais do que pensar em falar por elas e sobre elas sem o cuidado de haver uma narrativa autoral. 

As melhores histórias são aquelas onde o amor romântico não protagoniza a cena, como acontece em “A mãe sem-teto do DJ”, também adaptada para a série, onde um casal gay adota um bebê por meio de um processo de adoção aberta, para que a criança possa ter contato com a mãe — que, no caso, é uma sem-teto por opção. Embora diferente do episódio, a crônica é delicada e certeira em mostrar o amor de um pai por seu filho e a preocupação a respeito de suas questões psicológicas por ser adotado — e como fazer para que ele sinta-se amado e querido, tanto pelos pais adotivos quanto pela mãe biológica, que vê o filho anualmente. 

“Algo como a maternidade” pode ser considerada a melhor história do livro, já que nos conta como uma mulher que não desejava ter filhos encontrou-se numa situação em que acabou assumindo um papel próximo ao de mãe para ajudar a criar seus sobrinhos, que ficaram órfãos. Como ela mesma descreve, é uma nova espécie de amor, um amor que cresceu conforme ela tornava-se mais presente nas vidas das crianças, que necessitavam dela. Longe de ser um amor romântico e assemelhando-se ao enredo de Full House, a história nos faz chorar, rir e sentir que, embora a vida acabe, existem coisas que podem nos fazer continuar. 

Modern Love não é um livro perfeito. Existem histórias que, honestamente, jamais deveriam ter sido publicadas por serem muito ofensivas. Mas elas são duas ou três em comparação com outras tantas que nos fazem refletir sobre as múltiplas realidades do amor. Da rejeição ao reencontro, do nascimento ao luto, da esperança à solidão, o amor ajusta-se a todos os estágios porque ele não é uma coisa só, e essa é a sua beleza. 

O amor moderno possui liberdade. Tal liberdade reside na capacidade de compreender que vamos errar, e está tudo bem. Não somos perfeitos e certamente não precisamos ser perfeitos no amor. Se as crônicas de Modern Love mostram uma coisa, é certamente isso. E, justamente por tratar-se de dezenas de vozes distintas relatando suas experiências reais com o amor é que podemos olhar para as histórias reunidas no livro e não nos sentirmos tão sozinhos. 

1 Comentários

  1. eu amei a primeira temporada da série e estou esperando para ver a segunda quando estiver com tempo de dar muito atenção em cada detalhe. Fico com o coração quentinho em saber que tem livros <3 muito obrigada!
    Por fim, você escreve muito bem! Olhei e gritei jornalista!!

    ResponderExcluir

Postar um comentário