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30 e poucos anos e uma máquina do tempo, de Mo Daviau


Tem duas coisas às quais não resisto: livros sobre viagens no tempo e livros sobre música. O primeiro por motivos óbvios de viagem no tempo. Para alguém que ama história, pensar no passado é tudo. O segundo porque: música, que coisa incrível. Não sei como se construiu toda a nossa cultura musical, mas é certo que a música é uma das melhores coisas da humanidade e a capacidade que ela tem de totalmente transformar os nossos dias e as nossas emoções é algo lindo demais, então se tem algo escrito sobre música eu total vou ler porque bora conhecer coisas novas.

Bem, e tem esse livro. É um dos meus livros favoritos por alguns motivos, um deles pelo fato que sua história mistura as duas coisas: viagem no tempo e música. Para ser mais exata, viagem no tempo pra ver shows de bandas de rock. 

A mybest Brasil perguntou qual é o meu livro preferido para ler nas férias e eu não poderia ter respondido outro. 30 e poucos anos e uma máquina do tempo é um livro especial. Falei um pouco sobre lá no site da mybest e sigo a conversa por aqui.

Sobre o que é: Karl e Wayne, dois amigos de meia-idade, descobrem um meio de voltar no tempo para assistir a shows incríveis e a ganhar dinheiro com o negócio. Tudo vai bem até que Wayne decide o óbvio: interferir no passado. Afinal, quem dispensaria a chance de reescrever uma ou outra linha da própria história? Movido a música e romance, 30 e poucos anos e uma máquina do tempo é uma espirituosa, e um tanto nostálgica, reflexão sobre sonhos, escolhas de vida e a passagem do tempo.

Claro que, lendo essa sinopse, pensei que o livro fosse mais um sobre dois caras meio babacas que vivem naquelas de beber, lamentar o passado, beber mais e tentar pegar mulheres do que sobre viagens no tempo. Mas dei uma chance mesmo assim porque viagem no tempo, sem condições de esnobar. E fui surpreendida de uma forma que realmente não imaginava que seria.

O livro começa da forma que imaginei: dois amigos com vidas super fracassadas que ficam se lamentando enquanto bebem todas e relembram o tempo que já se foi. Mas um dia Karl cai dentro de uma espécie de buraco de minhoca que simplesmente apareceu dentro de sua casa e aí se vê voltando pra o passado. 

É aí que tudo começa. Ele conta a proeza pra seu amigo, Wayne, que é um físico, e o cara já se anima todo pela possibilidade de voltar ao passado e cria um esquema para que se possa viajar de forma segura, com a certeza de um retorno através de um app no celular. Porém, logo eles estabelecem regras: o buraco de minhoca é secreto; apenas alguns clientes do bar e amigos poderiam usá-lo para viajar no tempo; as viagens seriam programadas por eles e seriam apenas e tão somente para assistir a shows de rock; quem quisesse assistir a um show do passado teria de pagar muito bem por isso.

Porém, um dia Wayne decide que sua vida não faz sentido: ele tem muito dinheiro, um bom emprego e tudo de que precisa, mas ainda assim é infeliz. Então, decide fazer algo significativo: voltar no tempo e impedir o assassinato de John Lennon. Ele acredita que o mundo seria um lugar melhor com Lennon vivo e se manda pra o passado para salvá-lo, apesar dos protestos de Karl.

"Sentei ao computador e olhei fixamente para a interface do buraco de minhoca que Wayne havia criado. Ela parecia com Pong. No campo de PONTO DE ENTRADA CRONOLÓGICO, digitei 08 DEZ 1980, e entrei rua 72 com Central Park West, Manhattan, no campo de PONTO DE ENTRADA GEOGRÁFICO. Digitei lentamente, olhando para Wayne para que ele soubesse que as coisas iam ficar bem feias entre nós, independentemente de ele ser ou não bem-sucedido em salvar John Lennon. Essa merda de justiceiro me deixava com raiva. Certo, digamos que Wayne salve John Lennon, e depois? Estaríamos obrigados a matar Hitler, libertar os escravos, inverter as eleições de 2000, e socar o saco de cerca de 50 milhões de bullies em escolas primárias." 

Só que algo dá errado e aparentemente Wayne não foi parar no momento do assassinado de John Lennon, mas sim no ano 980, ou seja, mil e trinta anos no passado.

"Novecentos e oitenta. Mais de quinhentos anos antes de o primeiro barco de colonos holandeses desembarcar na ilha de Mannahatta. Não há registro na história americana para o ano de 980. Ainda se passariam mais cem anos antes da chegada dos vikings em Newfoundland." 

E agora, o que fazer? Como houve esse erro ridículo, Wayne não pode voltar, pois o app que permite as viagens no tempo necessita de energia elétrica, o que obviamente não existia há mais de mil anos. A única coisa possível é procurar um outro físico que tente dar um jeito naquilo, mas isso levanta outros problemas: primeiro que o buraco de minhoca é secretíssimo; segundo que, mesmo achando alguém confiável para revelar o segredo das viagens no tempo, ainda assim seria um grande obstáculo convencer a pessoa de que aquilo é real e não apenas uma grande brincadeira. E também não é como se Karl conhecesse um monte de físicos por aí - ainda mais um que entenda especificamente dessa área.

Claro que Karl não é tão burro assim e faz o que todos nós faríamos: apela para a internet e vai à caça de um astrofísico em quem possa confiar. Mas "todos os alunos de Ph.D. em astrofísica na Northwestern estavam retratados no site do departamento em fotos mal iluminadas tiradas na tradição artística do departamento de veículos motorizados. Não havia jeito de aquele bando de caras extremamente sérios, fora de moda e de barbas malfeitas acreditar em mim quando eu lhes explicasse minha situação, e se eles acreditassem, iriam roubar minha operação e mandar me matar".  Quando estava quase desistindo da empreitada e deixando seu amigo lá em 980, ele se depara com a foto de uma aluna de Ph.D. de astrofísica que se destacava dos outros. Ela tinha um cabelo com mechas azuis, óculos de Buddy Holly e camiseta dos Melvins, olhando pra câmera com uma cara de Courtney Love. O nome dela é Lena R. Geduldig, e Karl sabia que tinha encontrado a garota certa.

Só que esse livro foi escrito por uma mulher.
E livros de sci-fi escritos por mulheres não funcionam dessa maneira.

Todo aquele início acelerado, cheio de acontecimentos estranhos e impactantes de que eu falei nos parágrafos acima não é nada comparado ao que acontece com a chegada de Lena à história. Karl, que até então era o personagem principal, tem de ceder lugar pra essa mulher inteligente e complicadíssima, ferida de tantas maneiras que nem consigo acreditar direito que a Mo Daviau tenha conseguido criar uma personagem tão verossímil.

30 e poucos anos e uma máquina do tempo é um livro de ficção científica, mas é muito, muito mais do que ciência e ficção. É um livro que fala de coisas importantes que muitas vezes não são citadas na literatura. No centro de tudo está Lena, a jovem quase doutora em astrofísica que passou por traumas terríveis durante a vida, como a perda da mãe quando ainda menina, um pai relapso que casou novamente com uma mulher que não a aceitou, os problemas alimentares, o sobrepeso, o estilo underground quando isso era considerado ruim, um estupro que mudou completamente sua personalidade, a luta diária pra tentar seguir em frente e fazer o melhor possível. Lena é uma mulher real, com problemas reais e ver isso sendo retratado num livro de ficção científica é algo que realmente me deixou satisfeita. Por muitos anos eu deixei livros do gênero de lado justamente por sempre retratarem mulheres dentro de estereótipos de ajudante burra, ou personagem secundária que só aparece pra ajudar o personagem principal. Lena é introduzida no livro como uma ajuda pra Karl, mas ela rouba completamente a cena porque tudo acaba girando em torno dela. Ela é muito bem construída e seus dilemas são tratados como seriam no mundo real mesmo. Lena não vive num conto de fadas e esse não é um livro bonitinho.

"- Você podia lutar.

O lábio inferior de Lena começou a tremer.

- Sabe de uma coisa? Que se foda essa merda de 'lutar'. Por que eu tenho que lutar o tempo todo quando as outras garotas não? Você pega uma pessoa como eu, que foi tratada como lixo por praticamente todo mundo, e as pessoas acham que estão dando apoio quando dizem: 'Lute', 'Seja forte'. Mas o que eles estão realmente dizendo é que tenho que ser eu a mudar, não a outra pessoa, não o jeito como a sociedade funciona. Bom, eu não sou forte, e tenho uma inveja desgraçada das garotas que podem ser fracas, que conseguem tudo o que querem só ficando ali sentadas, sendo bonitas e burras. Vá se foder por me dizer para lutar." 

A vida não é fácil pra Lena e a descoberta da possibilidade de viajar no tempo só complica tudo ainda mais, no entanto é Lena quem salva o dia, afinal de contas - apesar de não haver um salvamento de fato, já que esse definitivamente não é um livro bonitinho. Mas Lena é o ponto central e suas inquietações são o que provocam as mudanças que afetarão o mundo. Porém, até isso acontecer, ela enfrenta diversas dificuldades, especialmente por ser uma mulher gorda e doutoranda em astrofísica.

"Estou acostumada com os homens não gostarem de mim assim. Eles têm que estar em paz com a gordura, e muitos homens estão, mas quando descobrem minha cabeça, fim de papo. Ser ao mesmo tempo gorda e inteligente, e também mulher, é algo desencorajado em nossa cultura, mesmo nos departamentos de física de nossas universidades que valorizam os melhores cérebros, onde homens superam as mulheres na razão de dez para uma. É de se pensar que ter uma boceta e ser capaz de discutir as últimas descobertas sobre o Bóson de Higgs seria um plus, mas não é. Adicione trauma e perda, e você pode ver por que prefiro a vida de um robô." 

Esse livro poderia ser dividido em duas partes: pra onde você iria se pudesse voltar no tempo? e quem você seria se pudesse mudar o seu passado?. A segunda pergunta é a mais relevante e provavelmente eu tomaria a mesma decisão da Lena, mesmo que isso alterasse drasticamente tudo, porque ter a possibilidade de mudar coisas essenciais que estragaram a sua vida para poder ser uma pessoa melhor, e não alguém desgraçada da cabeça, é uma ideia tentadora. O livro inteiro é incrível e virou um dos meus favoritos, mas a Lena, a Lena realmente é algo especial. Se eu tivesse de recomendar essa leitura por algo além dela própria (viagem no tempo! rock clássico! mais viagem no tempo!), usaria o argumento de que vocês precisam conhecer a Lena.




O livro, além de sci-fi, é sobre shows de rock, então é claro que ele tem uma playlist com as músicas e artistas citados. Clica aqui pra ouvir, só tem musicão. ♥

1 Comentários

  1. Carambaaaa, eu preciso ler esse livro! Voltar no passado para ver shows de rock é meu maior sonho kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk meu deus! Eu, com absoluta certeza, voltaria no passado para salvar John Lennon, mesmo se eu tivesse que ficar presa no tempo. Que loucura! Vou ler com certeza.
    Abraços!
    claraaoliveira.blogspot.com

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